segunda-feira, 30 de julho de 2012

Com remetente



"Eu você e todos os encontros casuais. Os ais e os hão de ser e todos os casais... Tudo passa."
Marcelo Camelo

Quero você do meu lado, como aquele dia no sofá, com a luz apagada e um pequeno brilho que vinha da varanda em nossa frente. A gente já não era mais os mesmos. Você continuava cheio de beleza, com aquelas conversas bobas e aquela intensa pirraça que ainda me fazia te olhar torto, mas cheio de vontade de rir. Eu já não te queria como antes, eu te queria como nunca tive, de braços fechados e salivas trocadas no meio da noite com outro qualquer. Outro que jamais teria nome ali, era impessoal e sujeito comum, que não completa sequer uma oração, quanto mais formará aqueles longos períodos que a gente escreveu.

Sim, eu ainda tinha ciúmes. Mas não era aquele desejo excessivo de matar alguém porque você fazia parte de mim. Era o gosto amargo de ter te perdido, de ter aberto mão, de sentir alguns grãos de areia escorrer pelos dedos. Lembro que desde pequeno eu achava que poderia segurar toda a praia com apenas um aperto de mão. Nunca gostei de baldinho e sempre construi meu castelo sozinho, mas chorava ao vê-lo despedaçar com a onda por não ter ouvido meus primos berrando que o lugar estava errado. 

Desisti de acreditar que eu era capaz de segurar tudo em minha mão. Fiz birra, chorei, resolvi mergulhar no mar e voltar limpo, de alma lavada, mas o coração ainda se mostrava fechado pra você. Se eu voltar um dia para aquele sofá, me despeço com um beijo, dessa vez com gosto de carinho, como nunca perdemos um pelo outro. Dissolvemos, decerto, em outros sentimentos azedos, instingantes, desejados por uns, mas que nunca vingaria pra sempre. Se nosso amor não vingou, por que nossa eterna briga de casal separado vingaria? E que fique a ternura, o beijo na mão de cada encontro nos fins de tarde e os doces que sempre nos fizeram mais amigos.

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ainda



O nosso amor parou aqui
E foi melhor assim.
Nana Caymmi

Ainda tenho nossa foto salva na área de trabalho, ainda me incomoda a proximidade dos nossos corpos, ainda lembro de você quando me mostram aquela música, a mesma que ouvi com você e suportei por você. Ainda não sei explicar o que aconteceu nesses quatro ou cinco meses de um ano que começou estranho, em alta rotação e ao mesmo tempo calminho. Ainda sinto um desejo interminável de que você desapareça, de que a gente nunca mais se veja, de que as recordações sigam juntas nessa mala que arrumei com um pouco de carinho e muito de entusiasmo. Ainda me pego acordando de madrugada e sentindo a cama fria do outro lado, naquela coberta verde, do lado do urso que segurou outro dia a almofada rosa. Ainda olho para as letras daquela almofada e questiono o quanto foi amor e o quanto foi farsa. A farsa que sustento até na dor, até no sofrer. E se for farsa, convenceu tão bem que machucou de verdade. Ainda choro quando percebo a bagunça que você deixou assim que saiu correndo e resolveu abrir a mesma mala que eu arrumei pra você ir embora. Não deu tempo catar as peças que iam caindo, os retratos que foram sendo pisoteados, as migalhas sufocantes em forma de lágrimas. Ainda sonho com os olhinhos pequenos, os mimos e os dramas, só que em outro rosto, outro toque e outro corpo. Ainda brinco de ser soldado de guerra dizendo que não foi nada, apenas uma batalha que acabou. Ainda me faço de menino grande e esqueço das pequenices guardadas em cada sintoma que deixo escapar despercebido, relaxado, em transe.

Ainda digo adeus. Ainda sinto o adeus. Ainda sonho com o adeus.

Texto de Patrick Moraes

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Olhares ávidos


I'm done with my graceless heart, so tonight I'm gonna end it.
(adaptado de Florence + The Machine)

Cansei de pontos e vírgulas que se tornam reticências com o derreter de um pingo na caneta de tinteiro. Parece que os fragmentos de amor se tornaram tão pequenos que se afastam, como poeira em meio a um deserto de olhares ávidos por um final de novela das oito. Já não me interessa saber todos os teus sujeitos, teus períodos, ainda que eu esteja aqui enchendo um texto só meu de orações sem sentido, em um fim de domingo, em um fim de uma ligação que perdura mais do que deveria.

Entre palavras trocadas, uma desculpa. Entre olhares trocados, uma perda. Entre aquelas (in)verdades ditas, uma maldição. A maldição capaz de transformar o que antes era belo em um simples espelho quebrado, com cacos que feriram. Por sorte, corri; e o que todos os olhares - dessa vez, ávidos por sangue - desejavam, não foram capazes de gerar mais que arranhões. Ainda aqui, sobre a pele, as marcas me fazem reviver sensações e olhar para um escuro tão mais claro quanto seria capaz de enxergar.

Um entremeio. Grades. Um aqui tão apertado que tonteia, nebula.
- Saia. Voe. Busque sua liberdade. Só nunca esqueça: a intensidade jamais será a mesma se não for (tão) alto. Aqueles olhares ávidos? Ainda estão te olhando, cá de baixo, para que não saia de tão perto deles, ainda que te faça subir por vezes em um espaço tão raso quanto aquilo que nos tornamos.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ainda aqui



Will our memories survive?
Whitney Houston

Já não sei se o desejo veio logo de manhã, quando acordei e não te vi mais do meu lado, ou a noitinha, quando ainda olhava da janela do meu quarto aquela hora em que você me abraçou tão doce que eu pedi pra ser eterno. Mesmo que passe durante o almoço, mesmo que eu esqueça os toques momentaneamente enquanto outros copos e outros gostos me tomam, o desejo sempre retorna em uma velocidade descompaçada incapaz de deixar meu coração acompanhar o ritmo bumerangue de tudo isso.

Sentei na calçada ali perto e pensei em ver tua bicicleta parada no muro, aquele mesmo que você escreveu "você é o amor que eu vou levar para sempre". Eu sei, cada palavra veio em inglês e bem pequenas, como pedaços de cupcakes com confetes tão coloridos que não fui capaz de devorar tudo. Igual ao nosso amor, igual aos nossos carinhos. Ainda que intensos, nunca foram capazes de ser entregues completamente. Preferiam doses homeopáticas, pacientes, delicadas. Preferiam viver um jogo de conquista com restrição para adultos práticos e crianças ainda cegas de amor.

Hoje, quando me perguntam sobre nós, apenas digo que no fim, seremos nós. Ainda os mesmos tolos apaixonados que um dia acreditaram no felizes para sempre, sem se dar conta que toda grande série de sucesso precisa de hiatos para criar expectativa.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quem disse que amores precisam ser pra sempre?



If you love me, I'll make you a star in my universe
Angus & Julia Stones

Não, amor não é eterno. Amor é estado de espírito, é intensidade que se vive talvez uma, duas, três vezes. Não é banal, mas passa longe de ser tão complexo como muitos murmuram e lamentam pelos quatro cantos da vida. Amor a gente até pode escolher na esquina virando a avenida principal ou naquele bequinho que cortamos caminho sem querer. E quando a gente escolhe, amor vira platônico, vira romance escrito com fantasias e coloridos de sonhos.

Não, amor não é lobo mau que persegue corações de capa vermelha. Amor pode ser sete anões tão pequenos, mas tão adoráveis, que é capaz de conquistar o coração de um menina tão branca quanto a neve. Amor é conto de fadas ou uma simples prosa mal contada, jogada letra a letra em um bloco de notas no fim da noite. Amor só não pode ser um fardo, carregado e impresso nos letreiros dos famosos outdoors virtuais para virar motivo de compartilhamento.

Amor não é jura de até que a morte nos separe, muito menos promessa de viver felizes para sempre. Amor é discutir, é ter ciúmes, é querer matar sufocando cada milimetro de raiva que simplesmente o próprio amor te fez passar. Amor nunca será um pote de nutella entregue de presente em pleno domingo de manhã, na cama, com beijos. Amor é sentar depois de um dia torturante e dividir o pote de nutella, mesmo que depois os dois estejam entregues no tapete, dormindo.

No fundo, amor não é definições. Amor é sensações, que você jamais poderá entender.

Texto de Patrick Moraes

terça-feira, 27 de março de 2012

Novos poemas de amor




E se foram os velhos textos, os sentimentos castigados e amadurecidos com o passar daqueles dias. Alguns exautivos, outros absurdamente prazerosos. Remoí alguns momentos, mas decidi que agora só teria novidades. Andei por mais alguns metros, me distanciei e olhei pra trás menos impaciente e mais cuidadoso.

Talvez eu tenha demorado de escrever a carta final, o parágrafo que soasse melancolicamente uma despedida, a frase que arrematasse tudo que foi vivido. Beijos e lágrimas podem definir algo que não me tirou do chão, apenas me deu vôos rasos. O legal é pensar que os velhos poemas de amor, que ainda estão sobre o banco de uma gangorra, me deixam absurdamente entusiasmado em tê-los de volta. Engraçado sofrer pela falta do sofrimento, gritar pela falta de confusão, remoer pelo que hoje virou vazio em meio a explosões de outros tempos.

Sentei no banco de madeira logo ali, no meio da confusão, e revi os pedacinhos de papéis que fui guardando na bolsa, antes de atirá-la ao mar, em um pedido de conforto. E se algum minuto dos próximos dias eu sentir saudade daqueles pedaços escritos à mão, lembrarei que estarão tão apagados quanto minhas aflições. Saudade fica, saudade vai. No fim, quero sentir falta daquilo que ainda não veio, daquilo que ainda não senti, daquele que seja pelo menos um vazio cheio de novos poemas de amor.

Texto de Patrick Moraes

cheio de vazios
que transbordam
seus sentidos 
pelo meio.
Paulinho Moska


sábado, 10 de março de 2012

Doce menos doce



So we keep waiting on the worldto change?
adaptada de John Mayer

Cansei de levar a banho maria uma sobremesa que simplesmente caramelizou. É, derrete toda hora e não consigo entender o ponto certo de tirá-la do fogo. Talvez não seja uma sobremesa a melhor metáfora que trago. Talvez nenhuma comparação consiga ser tão próxima de um bicho estranho chamado ser humano. Olho pra gente e vejo simplesmente dois momentos tão distantes que qualquer um com as lentes apuradas ririam dos dois macaquinhos que brincam de ser feliz. Nossos sorrisos são sincronizados, nossos beijos torturam qualquer olhar, mas nossos passos talvez sigam trajetos tão diferentes que está ficando complicado continuar de mãos dadas.

Não consigo viver daquele romantismo exagerado, daquele amor jogado aos seus pés. É piegas pra mim! Os motivos de pensar assim talvez sejam até mais piegas, mas é o passado. O tempo cura, mas não leva a cicatriz. Clareia, esconde, faz esquecer, mas se tornou tatuagem. Priorizar algo é como ter um filho, é querer mais que o mundo, ou simplesmente querer o mundo dando certo com aquilo. Não me venha com crises de romantismo, ora pois! Me venha com crises de afeto ou não venha. Se isso não te basta, que paremos. Nada mais me apetece como antes. Pra constar, ando mesmo é enjoado de tantos doces e tantas formas caramelizadas. Pimenta, cadê?

Texto de Patrick Moraes