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sexta-feira, 18 de março de 2016

Desapega


Para ler ouvindo "Liberdade"

Desapega dessa ideia de que ele é o cara certo. A vida real não é feita de príncipes, castelos e felizes para sempre. No final de todo conto de fadas, existe uma realidade em forma de continuação. Desapega das lembranças dos primeiros meses e do peito em que você deitou algumas noites para fugir do mundo. A vida real é feita de momentos, e o tempo é o grande inimigo de quem deseja congelar qualquer sentimento.

Desapega dessa mania de dormir e acordar pensando nele. Aprende, de uma vez por todas, que você não consegue lidar com seus afetos excessivos. Desapega do perfume dele após o banho ou até daquele cheiro que fica grudado no travesseiro depois que ele vai embora. Desapega das músicas favoritas que ele cantarola o dia inteiro quando acorda de bom humor e da comida preferida que vocês costumavam dividir naquele restaurante da esquina.

Desapega dos sorrisos que combinaram por tanto tempo, mas que vem amarelando ultimamente quando vocês se encontram. Desapega do primeiro poema que ele dedicou para você e de todas as vezes que ele parecia ter sido o melhor presente que a vida trouxe. Desapega da casa com quintal, dos dois filhos e até daqueles programas furados que vocês conseguiam se divertir apenas por estarem na companhia um do outro.

Desapega da ideia de que sofrer é parte do amor. Apaixonar-se não é uma forma de automutilação. Viver o amor é dividir a vida de forma terna, tornar mais doce o que naturalmente virá amargando. Não precisa colocar tanto sofrimento no que nasceu para ser belo. Amor quando pesa precisa de desapego. Talvez seja a hora de você encontrar a felicidade naquilo que te faz livre.

Não precisa desistir do amor. Se bem lhe conheço, mais cedo ou mais tarde, você descobre uma nova forma de se apegar ao que virá. Só não esquece o quanto é especial tudo que você cultiva aí por dentro e nem deixa morrer a pureza dos seus sonhos mais doces. Permita-se viver a leveza de se bastar no melhor que mora em você. Para ser feliz de verdade, é preciso apaixonar-se todos os dias por quem você é.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Ricardo William

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O que poderíamos ter sido



É tarde para dizer, mas eu achei que seríamos felizes para sempre. Naquela tarde em que senti seu perfume forte em minha camisa, meu estômago deu um nó só de pensar no que poderíamos ser daquele momento em diante. Mas eu levei duas semanas fugindo do que poderíamos ser e aí o tempo passou. Tempo quando passa vira passado e depois a gente descobre que o futuro não perdoa aquilo que a gente perdeu por pura indecisão.

Indecisão ou medo? Coração machucado uma vez, é coração que carrega um escudo por uma eternidade. Mas nada disso justifica tudo que poderíamos ter sido. Inclusive, meu bem, seríamos o casal mais feliz daquela avenida se você não tivesse deixado a multidão me levar. Esperei o tempo todo você me puxar pelo braço, olhar em meus olhos e gritar cada pedaço do seu querer como uma ordem de segurança para que ninguém se machucasse depois. Mas a espera é tão ingrata quanto a indecisão, e, outra vez, a gente se perdeu.

Queria muito te dizer agora que a gente ainda vale a pena, mas eu seria injusto com aquela coisa que vem do peito e a gente não tem o poder te comandar. Acho que valeríamos muito mais se tudo tivesse sido um pouco diferente: os desencontros, a falta de entendimento no olhar e até a sua mão que eu deixei de segurar por me perder na multidão. Mas não dá para mudar o que foi, muito menos o que não foi. Talvez seja melhor a gente culpar o destino e seguir em frente, acreditando que nós dois fomos escritos para se desencontrar.

Mais cedo, pensei em te mandar uma mensagem boba, sem qualquer arrependimento ou lágrimas nos olhos. Digitei uma frase e duas palavras, mas apaguei logo em seguida porque já não cabia mais a tentativa de te fazer sorrir. Acabei pegando nosso álbum de fotos para ter certeza que você ainda existia em mim. Não sabia se gostava da foto mais bonita ou da última, feita antes de você partir. Poderíamos ter sido tanta coisa, mas você preferiu que fôssemos só lembrança. Acho que viramos saudade daquela que se guarda, porque a saudade da espera se perdeu por aí.

Texto de Patrick Moraes

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Com remetente



"Eu você e todos os encontros casuais. Os ais e os hão de ser e todos os casais... Tudo passa."
Marcelo Camelo

Quero você do meu lado, como aquele dia no sofá, com a luz apagada e um pequeno brilho que vinha da varanda em nossa frente. A gente já não era mais os mesmos. Você continuava cheio de beleza, com aquelas conversas bobas e aquela intensa pirraça que ainda me fazia te olhar torto, mas cheio de vontade de rir. Eu já não te queria como antes, eu te queria como nunca tive, de braços fechados e salivas trocadas no meio da noite com outro qualquer. Outro que jamais teria nome ali, era impessoal e sujeito comum, que não completa sequer uma oração, quanto mais formará aqueles longos períodos que a gente escreveu.

Sim, eu ainda tinha ciúmes. Mas não era aquele desejo excessivo de matar alguém porque você fazia parte de mim. Era o gosto amargo de ter te perdido, de ter aberto mão, de sentir alguns grãos de areia escorrer pelos dedos. Lembro que desde pequeno eu achava que poderia segurar toda a praia com apenas um aperto de mão. Nunca gostei de baldinho e sempre construi meu castelo sozinho, mas chorava ao vê-lo despedaçar com a onda por não ter ouvido meus primos berrando que o lugar estava errado. 

Desisti de acreditar que eu era capaz de segurar tudo em minha mão. Fiz birra, chorei, resolvi mergulhar no mar e voltar limpo, de alma lavada, mas o coração ainda se mostrava fechado pra você. Se eu voltar um dia para aquele sofá, me despeço com um beijo, dessa vez com gosto de carinho, como nunca perdemos um pelo outro. Dissolvemos, decerto, em outros sentimentos azedos, instingantes, desejados por uns, mas que nunca vingaria pra sempre. Se nosso amor não vingou, por que nossa eterna briga de casal separado vingaria? E que fique a ternura, o beijo na mão de cada encontro nos fins de tarde e os doces que sempre nos fizeram mais amigos.

Texto de Patrick Moraes