segunda-feira, 12 de junho de 2017

Ao teu lado


Para ler ouvindo Sutilmente

Acorda, amor! Vem olhar de novo minha cara de sono enquanto bocejo te pedindo mais dez minutinhos na cama. Deita do meu lado e me deixa aninhar meu corpo ao teu como o maior escudo que a vida poderia me dar. Acarinha meu cabelo daquele jeito que me deixa ainda mais dengoso e me mostra toda paz que o amor é capaz de trazer.

Acorda ao meu lado mais uma vez e me mostra o quanto é inexplicável sentir o peito pulsar quando existe nós. Me conta os teus planos pra mais tarde ou pra vida inteira. Me faz sorrir com tuas piadas bobas logo cedo ou, simplesmente, sorri pra mim como a melhor demonstração de afeto que meus olhos podem ter.

Prepara mais um café na mesa que eu prometo não deixar ele esfriar nunca mais. As torradas, a geleia e uma flor pra te dizer obrigado por amanhecer, mais um dia, na minha vida. A mesa estará sempre posta para os nossos sonhos mais doces. O cabelo bagunçado e o pijama mais folgado dirão que nosso amor encontrou lar onde antes era vazio. 

Acorda nessa segunda-feira e perde teu horário com nossos beijos. Deixa o sol invadir nossa cama e dar bom dia insistentemente para nossos olhos pequenos. Me faz acreditar que todas as noites frias ainda valerão a pena se o amanhecer me trouxer você. 

Acorda, amor, e afasta todo medo do fim que aquele pesadelo me trouxe. Você sabe que, às vezes, a confiança vacila e as certezas se escondem debaixo da coberta nas noites em que você não está. Mas basta teu abraço mais uma vez para eu ter certeza que nosso encontro será eterno, não importa onde estejamos.

Me entende nos gestos e diz que ainda seremos dois eternos namorados, em qualquer tempo e com todas as nossas futuras rugas. Mora em mim e deixa eu fazer meu lar por aí. Só assim, a gente nunca precisará sair de casa para ver o amor sorrir a cada manhã.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Victor Macedo

domingo, 4 de junho de 2017

Você ainda mora em mim



Desculpa te escrever dois anos depois, quando todas as dores do nosso fim parecem ter ido embora de uma vez. Mas eu precisava te contar que ainda existe "nós", mesmo que só tenha sobrado silêncio entre eu e você.

A distância que eu te pedi me fez compreender melhor o que sobrou de você em mim. O tempo não foi capaz de carregar tudo que fomos e, por mais que o silêncio traduza todos esses meses depois do fim, ainda me questiono até que ponto somos só vazio. Desde o dia que dissemos adeus, eu procuro entender qual foi o medo que você deixou por aqui assim que partiu.

Na verdade, meu medo nunca foi te perder. O que me assustava, todas as noites, era a ideia de ver tudo que sonhei para mim simplesmente abrir a porta e sair. O que me deixava em pânico era não saber quais seriam as cores que iriam colorir os meus sonhos a partir de agora. Era o medo de não acreditar novamente no amor, mesmo sabendo que ele renasce todas as vezes que a vida tenta me provar o contrário.

Mas eu preciso te confessar que as lembranças do que fomos ainda me assombra um pouco. Você sabe da minha mania de guardar cada detalhe vivido como um grande presente. É como se isso fosse uma forma de possuir todos os afetos que vivi pelo caminho, mesmo que a maioria se perca de vista.

A verdade é que eu ainda não consigo deixar nossas lembranças esquecidas por aí. Eu ainda insisto em procurar o que fomos em todos os cantos, como quem espera uma nova versão de você. Uma espécie de comparação automática com o amor que você me deu, uma busca constante por gestos parecidos com aqueles que me arrancaram sorrisos. Involuntariamente, eu desejo encontrar nós dois na próxima avenida de um carnaval qualquer, mas sem os erros que cometemos. O medo de nos perder tirou a chance de qualquer futuro a dois e, agora, a gente simplesmente precisa lidar com o que ficou. 

Daqui, ainda torço para que seu sorriso encontre um lugar seguro e amável, assim como desejo desistir dessa ideia de que o próximo amor virá pintado em tons de você. Eu sei que ainda ficaram pedaços dos meus afetos por aí e todas as histórias que escrevemos ainda estão guardadas nos livros empilhados na estante da tua alma. Cuida bem de tudo e saiba que você ainda mora em mim de alguma forma, ainda que segundas chances não façam parte dos melhores roteiros que eu escrevo diariamente.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 2 de abril de 2017

Pra quando você voltar


Para ler ouvindo "Casa Pronta"

Desculpa não ter dito antes, mas eu ainda te espero desde o dia em que você foi embora. Espero você como quem não espera muita coisa dos outros caras, como quem sabe que aquele beijo na festa de sábado não passará nem o domingo presente. Espero como se esse fosse só um tempo que a gente precisava para se perceber como a melhor dupla de todas, o melhor time que a vida poderia colocar em campo para a goleada do campeonato.

Eu te espero para outra tarde vendo o por-do-sol, enquanto teu ombro serve de encosto para todos os meus pensamentos depois de uma semana que parecia não ter fim. Espero todos os beijos clichês que faltaram para completarmos nossa lista de coisas óbvias que nos fazem felizes. Quem realmente se importa com o lugar comum quando é lá onde a gente descobre uma tal de felicidade?

Desculpa ter escondido, por tanto tempo, toda essa vontade de mais uma vez nos fazermos dois. Sentir teu cheiro forte em mim depois do abraço de despedida, sentir teu toque suave enquanto você me tira toda a roupa, sentir teu olhar me protegendo enquanto a noite cai. Desculpa ter escolhido passar tantos dias até sem o teu café amargo, teu mau humor matinal ou a cara emburrada que só você sabe fazer quando eu me atraso para um de nossos encontros no sábado.

Eu também te desculpo por não ter voltado antes. Te desculpo por ter escolhido me dar espaço em meio à confusão de sentimentos que a gente escolheu viver. Você sempre soube melhor que eu como entender o tempo das coisas. Era como não ver as flores em meio à tempestade, mas saber que o jardim ia florir após os pingos d'água. Eu só precisava de solidão, você só precisava de fôlego.

Todo o silêncio que morou entre nós se cansou dos não ditos e resolveu se entregar nas músicas que você compõe e nos poemas que eu rabisco. Os nossos desencontros foram motivos para entendermos que também existe beleza em estar só. As desculpas são findas. Sem culpa, tua volta fará meu riso mais fácil e teu coração mais leve. Só assim, poderemos, mais uma vez, ser par.

Texto de Patrick Moraes
Foto de José Neto

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O que sobrou de nós



Para ler ouvindo "Imergir"

Desculpa te escrever depois de tanto tempo, mas eu precisava te agradecer por ter feito parte de tudo que vivi nos últimos meses. As tuas ausências foram os melhores motivos para que eu pudesse me descobrir. Mesmo sabendo que aqui dentro ainda tem pedaços de uma casa que chamávamos de amor, eu sei que vários cômodos já estão arrumados depois da bagunça que você deixou.

A solidão se tornou companheira desde que você decidiu ir embora. Foi difícil entender que ela não era uma inimiga. Foi difícil não culpar você pela minha desordem, pela minha falta de coragem em trocar as fotos, arrumar a cama e abrir as janelas no dia seguinte. Ainda que a lembrança da tua ausência fizesse morada por aqui, eu aprendi a lidar com os fantasmas do que sobrou de nós. E todas as noites que eu senti medo pela tua falta, foi a solidão quem deitou comigo e fez de mim o melhor lugar para estar.

Desculpa ter fugido depois que você foi embora. Ter evitado tuas mensagens, teus telefonemas, tua tentativa de compensar o fim com uma história que não nos cabia mais. Existem histórias que simplesmente não têm continuação. Todos os pontos e vírgulas que nos seguraram chegaram à última página. As três palavras que nunca foram ditas deixaram de ser reticências a espera de um momento perfeito e se tornaram o ponto final do nosso livro.

Mas a nossa casa continua aqui, sendo refeita. Ontem eu olhei o jardim que costumávamos chamar de nosso e vi uma pequena rosa crescendo. Ainda é pequena diante das rosas que um dia nasceram aqui. Ainda é sutil diante do roseiral que cultivamos. Ainda nem é capaz de sobreviver por alguns dias se for arrancada cedo demais. Mas foi ela quem me fez sorrir quietinho, abraçado com a solidão. Foi ela quem me mostrou que só conseguimos colocar a casa em ordem quando a coragem de ser feliz de novo nos faz acreditar no tempo.

Mesmo que todos os clichês de esperar o tempo certo das coisas parecessem não fazer sentido quando a solidão me abraçou todas as noites em que você não estava, eu decidi esperar. Esperar que sua falta não fosse notada e que todos os cacos deixados no jardim fossem levados pelo mar. Esperar que outras fotos desenhassem as melhores lembranças e que novos discos cantassem outras histórias. Esperar que cada nova rosa trouxesse, mais uma vez, a beleza de construir um novo lar. Talvez demore um pouco mais, mas é a certeza de que ainda há vida sendo cultivada depois do fim que me mantém de peito aberto para o amanhã.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Ricardo William