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quinta-feira, 31 de março de 2016

Sobre ele


Para ler ouvindo "Conversa de Botas Batidas"

Ele prefere falar em primeira pessoa, se declarando entre pedras e rosas. Descobriu cedo que só vale a pena se importar com aquilo que vem de dentro. Se não provoca nada, não merece tanta atenção assim. Na verdade, ele é amante do acaso. Gosta de como a vida apronta surpresas e debocha de quem tem pressa. Gosta da mansidão do (a)mar, da leveza do sorrir, da luz dos olhos que clareia os pensamentos mais nebulosos.

Sempre soube que foi feito de coração e alma. Ainda que lhe falte um amor, lhe sobra o amar. Aprendeu que só é possível estar completo quando vale a pena estar sozinho. Entendeu que ninguém é capaz de preencher o vazio no peito se não há disposição para reconstruir sozinho os pedaços que estão em falta. Cresceu ouvindo que a solidão é triste, mas resolveu acreditar que a lua pode ser tão bonita quanto às constelações. No fundo, ele sabia que a beleza mora naquilo que traz paz.

Amou uma vez e jurou nunca mais amar de novo. A dor da perda parece irreparável e a decepção parece imperdoável. Mais tarde, descobriu que não era capaz de abandonar os riscos de ser feliz. Resolveu amar de novo e de novo e mais uma vez, quantas vezes fossem necessárias. É que o amor é infinito para quem acredita naquilo que é pleno, e ele sonhava em tornar eternas as borboletas que cultivava dentro de si.

Ele nunca gostou de distâncias, dessa coisa de ver a saudade fazer morada em dois peitos que só desejam estar juntos. Já chorou pelas ausências eternas, já teve o peito sufocado pelas ausências temporárias. Já brigou consigo mesmo por insistir em amar sem razão, por deixar o coração mandar no compasso da vida. No fundo, ele só queria dar abrigo eterno à ternura dos sorrisos, sem precisar fazer uma prece todos os dias para que as aflições da vida fossem discretas e passageiras.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Lucas Lima

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Não deu para esperar


Para ler ouvindo "Açúcar ou Adoçante?"

É, cara, não deu para te esperar. Não deu para esperar você decidir que a gente valia a pena e voltar. Enquanto você insistia em uma relação sem futuro por aí, eu resolvi ir em busca da minha felicidade. É que eu cansei de abrir mão do meu destino por acreditar que você viria fazer parte dele. Cansei dessa história de vai e vem e de todas as noites em que deitei ao lado das suas incertezas. 

Não deu para esperar sua indecisão virar escolha, nem a ausência de possibilidades te mostrar que eu estava aqui. Segunda opção não combina com felizes para sempre, e talvez seu erro foi acreditar que a minha espera fosse sua única certeza. A gente cansa das faltas e, uma hora, a vida acaba jogando em nossa cara o prazer de se sentir completo.

Não deu para ver mais o pôr-do-sol imaginando quando seu ombro estaria ali do lado para olharmos na mesma direção. Anoiteceu e você simplesmente não veio. Anoiteceu e só tinha aquele céu de estrelas brilhando para acompanhar os meus sonhos. Acho que foi a lua quem me fez acreditar que a luz sempre existirá depois da escuridão, mesmo que as noites de insônia tentem me negar isso.

Desculpa, cara, mas não deu para retribuir as últimas mensagens de carinho. É que as cicatrizes me ensinaram a não acreditar naquilo que fere, e o nosso caso já me fez escrever todas as despedidas justas sobre a gente. Não tem mais segunda chance, nem segunda intenção, muito menos segundas amargas depois de domingos vazios. Não tem mais sofá em frente à porta, cama arrumada e o café sempre quente a sua espera. Não tem mais nossa música no radinho da sala, nosso poema preferido no livro de cabeceira, nosso retrato escondido na última página do meu caderno de escritos. Não tem mais nós.

Não deu para esperar você consertar todos as linhas mal feitas do caminho que o tempo foi desenhando para nós dois. Simplesmente não deu para te esperar, e eu resolvi abrir mão do que nunca existiu. Acho que a gente se perdeu na estrada e acabou ficando tarde para voltar em busca da direção certa. Acabou o tempo, acabou o vento. Sua ausência foi capaz de tornar brisa aquilo que um dia foi vendaval.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Geovane Peixoto

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Para você que vai chegar


Para ler ouvindo "João e o Pé de Feijão"

Ei, você que vai chegar. Não tenha pressa em vir. Já esperei tanto a sua presença que algumas noites imaginando como será sua chegada não fará das minhas insônias um desgaste tão grande. Mas não deixa de vir, não deixa de aparecer vestindo todo o conforto que a vida pede. Pode trazer em sua mão um tal de amor embalado em fitas de carinho. Prometo desembrulhar aos poucos e com cuidado. Não quero que nada se perca; nem a delicadeza do afeto, nem a sinceridade das palavras.

A vida anda tão amarga que seus dedos em meus cabelos já tornarão tudo mais terno no fim do dia. Basta chegar de mansinho e entrar. Deixei a chave debaixo do tapete e a luz do banheiro acesa. Não repara nessa minha mania de ter ao menos um pontinho de luz por perto, é que eu tenho medo de que você não me encontre no escuro e resolva não voltar outro dia.

Eu sei que você deve estar longe ou sem tempo. Por aqui, a correria da minha rotina anda me fazendo te esquecer um pouco. Na verdade, não só a correria. Andei me machucando novamente e, enquanto cicatrizava aquela ferida de um ex-amor, acabei tirando do pensamento essa ideia de que você viria. Mas nada como o tempo. Depois que a ferida sumiu, parece que a tal flor da esperança nasceu outra vez. Confesso que ainda duvidei se valia a pena acreditar de novo nessa ideia maluca de que você chegaria mesmo. Mas você sabe como eu sou. Nunca consegui me desfazer da ideia de que os nossos sorrisos combinam.

Desculpa se insisto na impaciência de vez em quando. Eu sei, eu sei, esperar é declarar guerra ao acaso. As surpresas do destino só acontecem quando a gente está distraído. Talvez você nem bata na minha porta, nem entre enquanto eu estiver dormindo ou nem veja a luz do banheiro acesa. Talvez a gente se encontre naquela multidão de gente chata e sem nenhuma graça. Talvez o meu sorriso distraído roube a atenção do seu olhar que, cansado, desistiu de procurar.

Só não esquece de vir despido do seu passado. Pode até trazer na mala algumas lembranças, mas nada que te impeça estar totalmente aqui. É que eu cansei de viver curando as dores expostas em fotos antigas e prefiro escrever uma história só nossa quando você chegar.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Uma xícara de chá

- Mãe, meu chá acabou!
- Não tem mais, filho.
- E de outro sabor? - implorava com olhos nostálgicos e sedentos.
- Você não iria querer misturar com as últimas gotinhas grudadas em sua xícara, iria?


O pano de mesa continuava florido, mesmo que, mais cedo, você tivesse derramado chá e, sem querer, o amargo da sua boca ainda refletisse na falta de açúcar do pote transparente. Aproveitamos a sua derradeira falta de atenção e resolvemos nunca mais marcar outro café daqueles. Nem chá, nem suco, nem água, nem um oi. Não combinávamos mais com torradas, geleias, toalha de mesa de morangos ou mesmo duas xícaras de louça japonesa com sachês usados no pires.

Rearranjaram as cadeiras e a que sempre foi sua puseram intencionalmente do outro lado da casa, escondida no sótão para que eu nunca fosse capaz de ir buscar. Meu medo de escuro só perderia para minha rejeição por poeira, exatamente como nós dois provavelmente acabaríamos: empoeirados e escondidos. Por medo, acreditei que a nova combinação de cadeiras da sala de estar ficaria incrível com o tempo. Por saudade, acreditei que era tudo uma questão de costume. Por amor, fugi da cama à noite e fui a passos curtos e miúdos naquele esconderijo onde te guardaram só para mais uma vez saber que você estava lá.

De manhã, as cadeiras, os chás e a toalha de morangos sorriam em tons de bom dia, sem saber que naquela noite eu quebrei o acordo de aceitar mudar a sala de estar por pelo menos alguns dias. Abri mais um sachê do último chá que dividimos e percebi que pouco importava se os outros sabores eram deliciosos. Hoje, era só o seu aroma que eu precisava pra sorrir mais uma vez. Mesmo que dessa vez eu só precisasse de uma xícara e a sua cadeira.

Texto de Patrick Moraes

"Pra onde elas vão? Embora." Cícero