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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Onde você guarda o preconceito?


Para ler ouvindo "Bossa"

Por onde anda teu preconceito, menina? Tem se escondido nos cachos negros que balançam nas esquinas de uma liberdade ou tem dormido nos afetos que andam gritando por aí? Me conta, menina, teu preconceito está por baixo das minissaias e dos pudores que carregam os olhos alheios ou vivem nos beijos de dois meninos em meio à praça central? Será que teu preconceito andou perdido em balanças e etiquetas luxuosas ou se refugiou nos sonhos daquele moleque da favela que só quer ter um nome e o direito de ser feliz?

Por onde andam tuas desculpas? Adormeceram no que te convém para despertarem com os tais valores convencionais que te formaram? Ou caminham juntas ao discurso de viver uma relação de amor e poréns? Será que a aceitação que você anda gritando por aí não tem andado negando os direitos de quem você diz amar? Será que a tua sabedoria não se perdeu em nome de uma fé que não atende nem as tuas próprias dúvidas?

Não sei bem, menina, mas as boas intenções que você diz esconder no peito não andam se mostrando em tuas falas ou teus gestos. Desculpa te contar, mas o que a gente guarda não afaga o peito de ninguém. As intenções não defendem quem sofre, muito menos confortam quem se machuca todos os dias. As tuas omissões, menina, não abraçam quem engole as dores a cada nascer do sol só pela vontade de ser feliz sendo quem é.

Eu sei que você também deve chorar todos os dias por alguma ferida que abriram em teu peito e disseram que a escolha era absolutamente sua. A vida tem se tornado um verdadeiro caos em busca de uma verdade que nunca existiu. Parece que o amor ao próximo tem se confundido com o ódio seletivo, com uma crença perversa, com uma moralidade que desconhece as diferenças humanas. Às vezes, olhar nos olhos do preconceito dói, assusta, faz a gente sair correndo e se esconder até que tudo passe. Mas não passa. O ser humano não aprendeu a fazer da vida um lugar mais terno e sorridente. O ser humano tem matado o respeito com a desculpa do pecado.

Desculpa te dizer isso, menina, mas é que mora em tuas mãos o remédio contra esse mal que machuca todos os dias alguém a tua volta. Não faz com que a dor do outro seja apenas um exagero de quem se diz vítima do preconceito. Lembra que, todas as noites, alguma ferida guardada em você vai latejar aquilo que mais ninguém consegue perceber. Se apronta e seja corajosa. Não tenha medo de parecer desafiar as normalidades que andam te dizendo ser de boa-fé. No fundo, quem luta pelo direito de cada um ser quem é luta pelo amor. E qual bem melhor do que aquele vindo de quem ama?

Texto de Patrick Moraes
Foto de Geovane Peixoto

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O boneco de um ano

"This home is where my heart is
My heart is where we both live
I'm sorry for acting so silly"
Tiago Iorc


Era noite de domingo. Não me lembro se havia lua cheia, se o céu tinha estrelas, mas sei que fazia bastante frio quando você nasceu. Era pequeno, tímido, curioso e tinha uma inocência sem tamanho ainda dentro de si. Você adorava brincar, mesmo que suas feições fossem, na maior parte do tempo, de birra. Não era bravura, era só uma forma de intimidar, de não deixar que qualquer um tentasse chegar perto para te fazer sorrir.

Nos seus primeiros meses, foram incontáveis as suas birras, tão incontáveis quanto as nossas brincadeiras naquele jardim. Você sempre corria quando me via chegar, eu sempre contava as horas no trabalho para poder te encontrar. Ver o sorriso de poucos dias ainda era minha diversão preferida de quase todas as noites. Você aprendeu aos poucos a falar a minha língua e, de repente, estávamos alinhados em um papo sem precisar soletrar mais nenhum sentimento.

Seus olhos; eles eram tão dengosos quando estavam tristes. Ou quando, simplesmente, queriam me convencer dos seus mimos. Gostava de te colocar deitado em meu colo, te fazer cafuné e me perder entre uma palavra e alguns risos. Daquele mesmo jeito quando chegou o primeiro urso de pelúcia. Era a brincadeira de ter um filho, com nome, afeições e direitos garantidos por decretos sentimentais. A guarda era minha, o carinho era nosso.

Você começou a engatinhar e adorava brincar de conhecer cada novo canto da nossa casa. Alguns te despedaçaram, outros te fizeram cair exausto de tanta diversão. Alguns te roubaram a inocência intacta, outros te trouxeram os sorrisos mais doces e sinceros. Mesmo com tantos receios nos primeiros passos, você nunca teve medo. Segurou em minha mão e andou. Desconsertado, cambaleando, com vontade de ser gente grande logo.

Mas aí você cresceu ainda mais. Era hora de eu te deixar ir ao mundo, te levar para aprender novas palavras. Ainda tinha medo de te ver longe por muito tempo, medo de você não conseguir andar com as próprias pernas ou alguém te derrubar pela simples vontade de te ver chorar. Queria te proteger de tudo, dos falsos contos de fadas, dos verdadeiros e imperceptíveis monstros. Por mais que seus passos já tomassem forma nas areias de uma praia distante, eu ainda queria te ajudar a terminar o castelo de areia que a gente começou.

O tempo passou. Você cresceu rápido demais. 

Hoje, você faz um ano. Sem bolo, sem vela, sem parabéns. Os doces? Ficam para o próximo aniversário. Os sonhos? Acabei de terminar uma bandeja deles e ainda estão quentes. Eu sei, não vai dar tempo você chegar para experimentar pelo menos um deles. Mas guardei seu presente aqui. Quando você chegar, os laços ainda estarão embrulhando o mesmo boneco de amor que eu encontrei naquele domingo quando você nasceu.

Texto de Patrick Moraes