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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O tal do acaso


Para ler ouvindo "Meu Plano"

Sempre acreditei que tudo - absolutamente tudo - era uma questão de escolha. Escolher uma roupa e não saber exatamente se, no fim do dia, o frio vai te fazer desejar um abraço quente ou o calor te fará dividir uma cerveja no bar mais próximo. Escolher sair de uma relação em que os risos são mais raros que as brigas ou acreditar que, na manhã seguinte, ainda existirão flores para serem colhidas em uma possível segunda chance.

Entre todos os caminhos propostos e algumas vias alternativas, dia desses, acabei me deparando com o acaso. Parecia vestido de escolha, mas ele acabou me deixando poucas saídas. Sem o romantismo do amor à primeira vista, muito menos a balela de que amor a gente constrói, o acaso me trouxe você e ponto. Sem os clichês de filmes, mas com a dura realidade de que o nosso tempo estaria sendo contado por uma espécie de bomba relógio. A explosão da despedida não causaria danos físicos, mas deixaria um rastro de saudade que a gente jamais conseguiria calcular se não tivesse aceitado viver. E vivemos. Como dois apaixonados pelo acaso, fomos cúmplices de pequenos prazeres sem culpa.

Você, impiedoso, não me deu a chance de seguir olhando para frente. Eu, irresponsável, te entreguei algumas pistas do que seríamos se não houvesse essa tal da distância. O acaso, brincalhão, riu de nós dois e nos fez jurar uma espera cruel. Juramos e seguimos, com uma pequena vontade de, outra vez, entregarmos cada pedacinho de paixão entre beijos, sussuros e um pouco de frio no meio daquele verão.

Pensando bem, acho que até o acaso é capaz de te colocar contra a parede exigindo que você escolha entre correr riscos ou viver na solidão. Do alto da gangorra, eu escolhi me apaixonar quando o acaso me apresentou você. Mas o problema de se apaixonar não é o risco de não dar certo, é a possibilidade de sentir saudade daquilo que desperta a paixão.

Texto de Patrick Moraes



Uma foto publicada por A Gangorra (@agangorra) em

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Foge, balão


"O tempo corre, a rosa morre
Nem tudo funciona de verdade."

Vesti o moletom velho que sempre escondia todas as vezes que você resolvia aparecer sem pedir licença. Calcei um chinelo surrado e não me importei se meu cabelo estava ou não tão bagunçado quanto as minhas certezas amorosas. Tirei da despensa tudo que poderia me distrair aquela noite, todos os restos de doces abertos e os pedaços de amargos chocolates que fui guardando para nunca experimentar um fim.

Entre todas as tentativas inocentes de te esperar, talvez eu tenha me perdido em avassaladores assassinatos de corações. O menino de rosto de anjo e moletom do Mickey alternava os personagens sem ao menos perceber que se perdeu. Você ainda era o prometido do reino encantado que montou entre castelos, torres e um legado não menos real que fabuloso. Mas você era o escudo para as truculências de uma frieza inesperada mesmo em momentos quentes. Você nunca deixou de existir, mesmo que, por vezes, você se fizesse apenas como um trunfo para justificar qualquer atitude banal e impensada.

As coisas não iriam mudar enquanto aqui dentro ainda estivesse confortável. Te amar era real, mas era ainda maior o conforto de ter sobre quem escrever nas noites amarguradas e saudosas. Era convincente ter lágrimas no coração para banhar a alma vez em quando, na certeza de que o próprio amor estava vivo. Ainda era doído como tudo terminou, mas até isso era preciso guardar para que eu pudesse ter o que esperar. E sua espera passou a ser a lei dos últimos dias.

Coloquei a televisão no mudo para ouvir o descompasso aqui dentro. Já não sabia se era a saudade quem batucava quase que sem ritmo ou se era o desespero de não ter o que chorar caso eu deixasse você ir de uma vez. Sorri como quem vê um balão colorido escapando das mãos de um menino e não sabe onde aquilo tudo vai dar. Será que ele estoura antes de chegar lá no céu? Mas onde é mesmo o céu? Será que um dia eu vou conseguir tocá-lo sem ao menos questionar o que é possível?

Um pouco de som, um pouco do amargo chocolate. Um pouco da sua distância, um pouco das minhas más intenções revestidas de boas tentativas. Igual aquele balão, era assim que a vida andava: subindo, pairando, mas sem a certeza do momento em que iria se desfazer no ar e voltar a ser plástico velho pelo chão.

Texto de Patrick Moraes