Mostrando postagens com marcador Ed Sheeran. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ed Sheeran. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Aquilo que você deixa aqui



O que fica não é teu sexo tardio ou a tua ligeira entrega. Fica teu cheiro marcado na fronha do meu travesseiro e o toque da tua pele que pareceu provocar calafrios a cada minuto. Fica o sorriso de cabeça baixa na mesa do jantar, o elogio despretensioso quando você entrou no carro, o quase beijo da primeira noite que encostou teus lábios no canto direito da minha boca.

Não tem nada a ver com teus olhos serem os mais bonitos, nem teu corpo ser o que causa desejo por onde passa. Tem a ver com a forma como você agitou as borboletas adormecidas que vivem aqui dentro. Tem a ver com os sorrisos bobos que teimaram em aparecer durante o dia em meio aos pensamentos soltos. Tem a ver com as horas que se arrastam quando só cabe saudade para definir o que a rotina nos impôs.

Você não deixa lembranças quando se esconde atrás desse muro de incertezas criado para autodefesa. Você só se frustra ainda mais com esse tal de amor que nunca deu certo em sua vida. Na realidade, você só deixa marcas na pele quando se entrega: aos desejos, aos encantos, às incertezas que o destino te reserva, mas que só você pode dizer sim. Você somente deixa marcas aí dentro quando me dá sua mão e finge não ver todos os olhares daquela gente careta que se alimenta de pequenices vazias.

Quer saber? O que fica é aquela tua companhia do fim de semana passada, aquele teus olhos apertados acordando e dando de cara com meu bom dia em forma de sorriso de cara amassada. O que fica é aquele abraço de despedida que, sem palavras, grita “fica mais” ou “volta o mais rápido que você puder”. Porque tudo isso tem a ver com sentir e sentir não tem nada a ver com regras, manuais, segredos e escudos de romances mal terminados do passado.

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Em uma esquina


If you're broke then I will mend ya
and keep you sheltered from the storm
Ed Sheeran



Vi você perdido na sacada daquele prédio de cor descascada ainda que fosse novo. Nossos olhares não se cruzaram. Éramos dois pontos paralelos, mesmo que eu puxasse a todo custo a minha linha para chegar mais próxima da sua. Lembro de ter descido do meu prédio, chegado bem perto do teu jardim, olhado pra cima e esboçado um grito que pudesse ecoar o meu desejo desesperado de cruzar nossas retas.

Dois dias se passaram e, dessa vez, você tinha puxado uma cadeira, olhado pra mim e sorrido. Talvez nem fosse um riso, fosse um mexer de canto de boca provocado pela minha insistência disfarçada de simpatia. É, costumo ser simpático quando quero unir pontos de uma travessia. Você foi adorável nos outros dias. Ainda não sabia seu nome, mas decorei o casaco branco que você usava para ir ao colégio e aquele penteado milimetricamente desajeitado. Todas as noites te via chegar, abrir a cortina do seu quarto e acenar, de longe, com os olhos que exalavam curiosidade e necessidade de afeto.

Não demorou muito para eu cruzar contigo na esquina do meu prédio, perto do seu. Pensei em fugir pela faixa de pedestre, mas o sinal fechou. Ainda tentei passar despercebido entre os carros, mas você segurou meu braço e riu. "Espera!". Já não sabia se me assustava mais com a buzina daquela kombi velha, com sua forma atenciosa de me tratar ou com o sinal que simplesmente resolveu ficar fechado por mais de um minuto.

Desisti de atravessar a rua. Descobri o seu nome. Soltei sua mão do meu braço e a segurei levemente forte. Era a forma de dizer o quanto as nossas ruas foram construídas para se encontrar em uma esquina. E se não fosse nessa, seria em outras dispersas em qualquer avenida, mas com tanto desejo, curiosidade e afeto que qualquer amor ficaria com inveja.

Texto de Patrick Moraes