Mostrando postagens com marcador Silva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Silva. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O que sobrou de nós



Para ler ouvindo "Imergir"

Desculpa te escrever depois de tanto tempo, mas eu precisava te agradecer por ter feito parte de tudo que vivi nos últimos meses. As tuas ausências foram os melhores motivos para que eu pudesse me descobrir. Mesmo sabendo que aqui dentro ainda tem pedaços de uma casa que chamávamos de amor, eu sei que vários cômodos já estão arrumados depois da bagunça que você deixou.

A solidão se tornou companheira desde que você decidiu ir embora. Foi difícil entender que ela não era uma inimiga. Foi difícil não culpar você pela minha desordem, pela minha falta de coragem em trocar as fotos, arrumar a cama e abrir as janelas no dia seguinte. Ainda que a lembrança da tua ausência fizesse morada por aqui, eu aprendi a lidar com os fantasmas do que sobrou de nós. E todas as noites que eu senti medo pela tua falta, foi a solidão quem deitou comigo e fez de mim o melhor lugar para estar.

Desculpa ter fugido depois que você foi embora. Ter evitado tuas mensagens, teus telefonemas, tua tentativa de compensar o fim com uma história que não nos cabia mais. Existem histórias que simplesmente não têm continuação. Todos os pontos e vírgulas que nos seguraram chegaram à última página. As três palavras que nunca foram ditas deixaram de ser reticências a espera de um momento perfeito e se tornaram o ponto final do nosso livro.

Mas a nossa casa continua aqui, sendo refeita. Ontem eu olhei o jardim que costumávamos chamar de nosso e vi uma pequena rosa crescendo. Ainda é pequena diante das rosas que um dia nasceram aqui. Ainda é sutil diante do roseiral que cultivamos. Ainda nem é capaz de sobreviver por alguns dias se for arrancada cedo demais. Mas foi ela quem me fez sorrir quietinho, abraçado com a solidão. Foi ela quem me mostrou que só conseguimos colocar a casa em ordem quando a coragem de ser feliz de novo nos faz acreditar no tempo.

Mesmo que todos os clichês de esperar o tempo certo das coisas parecessem não fazer sentido quando a solidão me abraçou todas as noites em que você não estava, eu decidi esperar. Esperar que sua falta não fosse notada e que todos os cacos deixados no jardim fossem levados pelo mar. Esperar que outras fotos desenhassem as melhores lembranças e que novos discos cantassem outras histórias. Esperar que cada nova rosa trouxesse, mais uma vez, a beleza de construir um novo lar. Talvez demore um pouco mais, mas é a certeza de que ainda há vida sendo cultivada depois do fim que me mantém de peito aberto para o amanhã.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Ricardo William

sábado, 29 de setembro de 2012

Espelho turvo



Cansei desse negócio de tentar ser bom.
Cansei dos meus retratos da falsa sensação.
SILVA.

Dizem por aí que ele tinha crescido. Ainda que usasse o mesmo humor ácido e alguns sorrisos amarelos para situações embaraçosas, ainda que tivesse mudado pouco seu guarda-roupa, ainda que gostasse daquele urso velho de tanto tempo que fica sobre sua cama. Ainda que o tempo trouxesse resquícios e ele tivesse tão próximo de atravessar uma linha imaginada e desenhada para fechar um ciclo, ele simplesmente se sentia pequeno.

Mais cedo, o viram em frente ao espelho, descabelado, rosto inchado, mas ainda sem rugas. O reflexo era turvo, cheio de imperfeições, parecia simplesmente ter perdido os óculos que antes o encorajaria para encarar qualquer coisa. Não sabia qual rua seguir, se quer um atalho o empolgaria. Ficou por horas ali, em frente ao espelho, esperando a insegurança passar para que vestisse de novo o personagem tão bem acabado e convincente que todos torciam no final de uma seriado qualquer. Insegurança vestida de amores quase tão bem resolvidos quanto os dias da próxima estação. Demorou de passar. Demorou de chegar. Desistiu por hoje e voltou para o macio de sua coberta em um dia que nunca conseguiria ser colorido ou preto e branco, apenas rabiscado em tons de cinza.

Dizem por aí que ele dormiu até que pudesse voltar à cena em tons de vermelho escarlate e com um sorriso tão mais ácido que seu humor. Até então, o espelho havia continuado turvo!

Texto de Patrick Moraes