sábado, 19 de setembro de 2020

O descompasso de viver a dois

Para ler ouvindo "Nosso Nó(s)"

Hoje, eu levantei e te deixei ali, do outro lado da cama, como de costume, como todos os dias faço desde que você chegou. Admirei teu sono, mas senti o peito apertar de leve. Era como um sussurro amargo de que estamos nos perdendo.

Caminhar junto é precisar parar vez em quando para acertar o passo. Na ânsia de percorrer a estrada, não nos damos conta exatamente da hora na qual nosso ritmo perdeu o compasso. Sentei um pouco, respirei fundo e tentei te encontrar nessa longa viagem que o acaso nos trouxe.

Viver a dois não é tarefa simples, por mais que o amor seja. Viver a dois requer mais que entrega, mais que beijos, mais que sexo. É como se descobrir em muitas camadas que muitas vezes você sequer percebeu que existiam. Olhar para dentro do outro dói. Olhar para dentro de si dói ainda mais.

Viver a dois é precisar se questionar antes mesmo de questionar o outro. Porque as respostas, muitas vezes, estão ali, escritas nas entrelinhas, ditas nos gestos, sentidas pelo olhar ou pelo vazio dele. E quando a gente não consegue ler o outro além das palavras ditas, a gente entende que o caminhar a dois precisa ser ajustado, mesmo que não saibamos a melhor forma.

Hoje, depois do sussurro no peito ao levantar e te ver dormir, eu fiz o café e sentei aqui para escrever. Os descompassos, muitas vezes, se alinham nas tentativas de torná-los letras, frases, textos que, provavelmente, se perderão por aí. E que sejam só os textos a se perderem. 

Eu continuo aqui, tentando respirar em meio a uma pausa na estrada para ver (re)aproximar seus passos dos meus. Ainda que solitário, ainda que melancólico, ainda que impaciente, ainda que sem todas as respostas, eu continuo no caminho por acreditar que viver a dois não é simples, mas tem sido uma experiência extraordinária.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 14 de abril de 2019

Hoje, eu decidi te escrever


Para ler ouvindo "Cecília"

Não queria estar te escrevendo agora. Desde a minha partida, as coisas foram mudando dia após dia. O parque que costumávamos passear pareceu viver em um eterno outono, assim como nossa relação se encontrava nos últimos tempos, quando fingíamos dividir a vida.

Mas foi melhor assim. A distância, os dias frios de um inverno de luto, a ausência de mensagens, o silêncio ensurdecedor dos nossos sentimentos. Você precisava perceber que asas não são sinônimos de despedidas. Quando o outro pode voar, mas escolhe pousar, todos os dias, ao teu lado, você encontrou o amor. Não existe amor sem aquele sentimento mútuo de encorajamento e de realizações pessoais.

Não queria estar te escrevendo agora porque não sei exatamente como andam as coisas aí, mesmo sabendo como tem se dado tudo por aqui. Ainda tenho medo de não ter apagado tudo de ruim que ficou aqui dentro quando eu fui embora naquela tarde de domingo ou de já não existir mais nenhuma lembrança afetiva de nós dois e eu me dar conta do vazio que venho cultivando.

Mas é melhor assim. Depois de anos, cada dia venho descobrindo o que ainda ficou de você e o que já é passado - mesmo sabendo que nós dois deixamos de ser presente desde quando você não me deu escolhas pra eu ser quem eu simplesmente queria ser. Os sonhos sufocados se tornaram palavras sufocadas. Eu já me desconhecia todas as vezes que olhava para você traçando caminhos que eu não queria percorrer.

Mas eu decidi te escrever pra te contar que depois daquele domingo crucial, eu resolvi que a vida seria escrita com minhas próprias palavras. Não dava mais para sonhar com um final diferente se eu entregasse a narrativa dos meus dias a outra pessoa e esperasse ela ser escrita. Eu precisava abrir o livro em branco e assinar meus próprios termos. Até nas folhas borradas de erros, até com as frases mal escritas que pareciam tão incríveis no afã de momentos que eram meus. Eu precisava assumir o roteiro.

Depois daquela tarde de domingo em que eu parti, resolvi que só te escreveria quando o barulho da porta do seu apartamento se fechando já não soasse tão alto aqui dentro. Quando teu sorriso já não despertasse mais minhas lágrimas. Quando minha saudade afetuosa e audaz já não martelasse no peito esquecendo o verdadeiro motivo pelo qual eu deixei você ali e fui embora.

Na certeza de que ainda me descubro longe de você, eu te escrevo para dizer que escrever minha história tem sido a melhor decisão que eu tomei desde que deixamos de ser nós. Você fez falta. Você era a certeza de que repousar em um só ninho podia ser tão (ou mais) incrível que a sensação de voar. Mas você nunca quis que voássemos e eu nasci pássaro: amante do vento.

Depois de tanto tempo, eu decidi que te escrever agora era a grande chance de te dizer adeus sem qualquer tipo de ressentimento. Sem as mágoas, sem as lágrimas, sem o gosto do beijo ainda nos lábios, sem o tremor nas pernas pela raiva frustrante de ter me enganado outra vez. Eu decidi te escrever porque já não era mais você. Era eu. Sozinho e completo de mim mesmo.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Matteus Palmeira

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Você que me faz continuar todos os dias


Para ler ouvindo "Rainbow"

Você chegou grande quando eu ainda era pequeno. Não parecia sonho, parecia que seria real sempre que eu quisesse. Era como uma melhor amiga, daquelas que te conforta quando seu mundo parece sumir. Ouvia todos os lamentos, deixava as lágrimas secar e dizia, em tom paciente, que tudo ficaria bem. Você era meu alívio nos dias cheios, meu refúgio nos momentos de vazio.

Com o passar do tempo, eu fui acreditando menos em você. Não que eu tenha te abandonado. Acho que eu não conseguiria viver sem você nesse lugar com tanta gente estranha e negativa. Eu precisava que você me fizesse acreditar em sua verdade. Era vital seguir de mãos dadas contigo.

Você nunca desistia. Eu admirava sua coragem de se erguer dez vezes se fosse necessário enfrentar dez quedas. Você era inspiração de muitos, uma espécie de ar quando o mundo sufoca. Isso, você era oxigênio! Era a forma mais bonita de nos manter vivos, de nos fazer levantar cedinho e acreditar que a vida ainda precisa de mais amor.

Entre os meus vacilos e a sua persistência, eu descobri o seu segredo. Você era quase como a famosa Poliana dos contos literários. Você sabia que não valia a pena gastar energia com o que atrasa o passo. Era necessário mais: mais um amanhecer, mais uma chance, mais um desafio, mais uma tentativa de terminar o dia com um sorriso no rosto. Você era como uma semente no meio de um jardim devastado.

Ainda lembro daquele dia na praça, quando aquela senhorinha com cabelos grisalhos me contou o quanto o tempo deixa as pessoas amargas, tristes, rancorosas. "Elas desistiram de sonhar, meu filho". Eu, ainda muito pequeno, não entendia direito como alguém era capaz de desistir de sonhar. Mas eu sabia que você nunca deixaria que eu deixasse de sonhar. Você sabia que sonhar era o impulso diário que nos mantém em pé. Sonhar é a ordem em meio ao caos.

Todas as noites, quando eu penso em desistir, eu lembro que você continua aqui e planto mais uma semente em mim. Mesmo sem a certeza de quando ela irá florescer, plantá-la é uma forma de tornar tudo mais leve. E quando o sol raiar, eu saberei que nosso elo está ainda mais firme e você será sempre a esperança mais forte e companheira que eu carregarei pela vida.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Marcelo Morais

Esse texto faz parte do projeto Cinco Lados
"Desafio 9 - Um texto baseado na definição de uma palavra"

domingo, 13 de agosto de 2017

Até quando será sobre você?


Para ler ouvindo "Meu Erro"

Simplesmente não chegou a hora. Eu ainda não estou pronto para ir em frente, para reconstruir todos aqueles planos que a gente cresce aprendendo que é necessário fazê-los. Um futuro a dois, uma casa com jardim, talvez alguns filhos, talvez um cachorro. Todos esses planos foram escritos com minhas risadas e os detalhes dos seus sonhos mais loucos. As sugestões de nome do nosso primeiro filho e o quanto ele torceria pelo seu time de futebol preferido em cada novo jogo. A viagem de um mês na lua de mel e a raça do cachorro que cresceria junto ao nosso pequeno.

É, os detalhes do que fomos não foram embora. Você ainda é o fantasma responsável por eu estar parado nessa mesma estação. Procurar o que fomos em alguém que chegou é o maior erro que podemos fazer para dar novos passos. A gente só consegue ir em frente quando o passado não nos prende mais, quando, de fato, estamos livres para escrever um novo futuro. Mesmo que eu saiba que essa é a resposta para te deixar ir, eu simplesmente escolho não embarcar.

Quantos anos as boas lembranças permanecerão? Quantos meses a esperança viverá? Quantos dias o desejo de te ligar mais uma vez estará aqui? Ainda é difícil saber quanto tempo eu preciso esperar para desistir de você e resolver insistir em mim. Sem a desculpa que não chegou a hora. Abandonar você por completo ainda é uma tarefa que exige esforço diário. Você mora nos pequenos detalhes dos meus sonhos e reconstruí-los exige coragem para encontrar o amor sozinho.

Escrevo hoje de uma forma diferente, com o desejo que você leia sem que eu precise me desculpar em estar te escrevendo. Notei que ainda te peço desculpa em quase todos as últimas cartas que te escrevi: tanto as que escondi, como as que enviei. Meu inconsciente ainda me sabota quando falo sobre você, mas você sabe que não existe qualquer tipo de culpa sobre o nosso fim. Eu precisava ir de um lugar onde você não queria ficar. Você desejava fugir de onde o amor nos exigia coragem para lutar. Já havíamos fracassado antes mesmo de nos darmos conta. Sua falta de coragem nos declarou derrotados antes mesmo do nosso fim.

Eu sei que essa é só mais uma carta que eu escrevo tentando respirar depois do tumulto. Ainda permanecerei nessa estação, inventando desculpas todos os dias para não embarcar até o momento em que não existir mais palavras em minhas tentativas de reescrever uma história que não teve o seu final feliz. Nesse dia, eu saberei o destino da minha próxima viagem, e o medo de desistir de você já não existirá, afinal de contas, não é possível abrir mão daquilo que não temos. A gente só escreve novas histórias quando decide abrir o livro em uma página em branco. Caso contrário, as marcas do passado ainda estarão lá, ocupando os espaços onde deveriam existir novas poesias.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Jon Pereira

Esse texto faz parte do projeto Cinco Lados
"Desafio 13 - Um texto inspirado em um poema"

domingo, 23 de julho de 2017

Carta para quando teu sorriso chegar


Para ler ouvindo "De Mais Ninguém"

Te escrevo hoje sem saber muito bem quando você virá, mas eu sei que nossos corações vão se encontrar na hora certa. A casa ainda não está pronta, seu quarto vai precisar de uns ajustes e meu medo de não te fazer a melhor pessoa do mundo ainda precisa de coragem para ser superado.

Te escrevo pensando em mim mais novo, pensando em como foi incrível ter alguém para me guiar quando eu cheguei por aqui. Os primeiros passos encorajados por sorrisos largos, as primeiras quedas seguidas de abraços fortes. Depois a gente vai crescendo e as quedas vão se tornando diferentes. Mas eu espero estar aqui para te acalentar quando o teu mundo parecer estar ao contrário.

Você virá ainda pequena e mesmo que eu ainda não tenha certeza do seu nome ou das suas feições, eu tenho guardado um universo de amor para te entregar. A missão não será fácil, mas prometo ser paciente com seus sonhos e te ajudar a ser cada dia melhor. Em troca, você faz de mim o cara mais sortudo do mundo por poder crescer ao teu lado em coração e alma.

Mas nem tudo será fácil. Haverá os dias em que a vida parece te testar e as cicatrizes que você colecionará com o decorrer do tempo te farão mais forte. O mundo tem sido um lugar cruel para quem acredita em sonhos. Amar se tornou desafio dos que ousam ser feliz. Mas eu espero que você não desista nunca do amor. Faz dele sempre o melhor jeito de seguir em frente. O caminho do bem ainda é a melhor estrada para quem deseja colher bons frutos. Acredite em mim, nenhum atalho compensa essa jornada em busca da realização plena.

Te escrevo também porque esse sonho não será só nosso. Outras pessoas esperam tua chegada com o coração cheio de ansiedade. Você conhecerá cada uma delas e aprenderá a chamá-las de família. Elas podem parecer estranhas às vezes, diferentes quase sempre e barulhentas toda vez que se juntam. Mas elas te farão sentir acolhido quando lá fora parecer frio e solitário.

Ah, antes que eu esqueça, você terá que vencer uma batalha todos os dias apenas por ser uma menina. O mundo ainda tem barreiras para muitos de nós, mas nunca deixe que elas te impeçam de ir em busca do que é seu. Tua liberdade será questionada, assim como o caminho da montanha que você quer percorrer em busca dos teus sonhos. Mas não se intimide, seja corajosa e suba o mais alto que puder com a certeza de que as suas conquistas não derrubarão ninguém.

Eu teria ainda muito pra te dizer, mas vou deixar que todas as histórias se transformem em afeto e que elas te protejam assim que você estiver nos meus braços. Me despeço com um segredo que será nosso e que carregaremos juntos todos os dias: não tem problema nenhum não ser forte o tempo inteiro. Não existe alma onde é vazio. Sentir-se frágil é saber o quanto existe de vida dentro do teu peito.

Texto de Patrick Moraes

Esse texto faz parte do projeto Cinco Lados
"Desafio 15 - Um texto que envolva criança"

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Ao teu lado


Para ler ouvindo Sutilmente

Acorda, amor! Vem olhar de novo minha cara de sono enquanto bocejo te pedindo mais dez minutinhos na cama. Deita do meu lado e me deixa aninhar meu corpo ao teu como o maior escudo que a vida poderia me dar. Acarinha meu cabelo daquele jeito que me deixa ainda mais dengoso e me mostra toda paz que o amor é capaz de trazer.

Acorda ao meu lado mais uma vez e me mostra o quanto é inexplicável sentir o peito pulsar quando existe nós. Me conta os teus planos pra mais tarde ou pra vida inteira. Me faz sorrir com tuas piadas bobas logo cedo ou, simplesmente, sorri pra mim como a melhor demonstração de afeto que meus olhos podem ter.

Prepara mais um café na mesa que eu prometo não deixar ele esfriar nunca mais. As torradas, a geleia e uma flor pra te dizer obrigado por amanhecer, mais um dia, na minha vida. A mesa estará sempre posta para os nossos sonhos mais doces. O cabelo bagunçado e o pijama mais folgado dirão que nosso amor encontrou lar onde antes era vazio. 

Acorda nessa segunda-feira e perde teu horário com nossos beijos. Deixa o sol invadir nossa cama e dar bom dia insistentemente para nossos olhos pequenos. Me faz acreditar que todas as noites frias ainda valerão a pena se o amanhecer me trouxer você. 

Acorda, amor, e afasta todo medo do fim que aquele pesadelo me trouxe. Você sabe que, às vezes, a confiança vacila e as certezas se escondem debaixo da coberta nas noites em que você não está. Mas basta teu abraço mais uma vez para eu ter certeza que nosso encontro será eterno, não importa onde estejamos.

Me entende nos gestos e diz que ainda seremos dois eternos namorados, em qualquer tempo e com todas as nossas futuras rugas. Mora em mim e deixa eu fazer meu lar por aí. Só assim, a gente nunca precisará sair de casa para ver o amor sorrir a cada manhã.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Victor Macedo

domingo, 4 de junho de 2017

Você ainda mora em mim



Desculpa te escrever dois anos depois, quando todas as dores do nosso fim parecem ter ido embora de uma vez. Mas eu precisava te contar que ainda existe "nós", mesmo que só tenha sobrado silêncio entre eu e você.

A distância que eu te pedi me fez compreender melhor o que sobrou de você em mim. O tempo não foi capaz de carregar tudo que fomos e, por mais que o silêncio traduza todos esses meses depois do fim, ainda me questiono até que ponto somos só vazio. Desde o dia que dissemos adeus, eu procuro entender qual foi o medo que você deixou por aqui assim que partiu.

Na verdade, meu medo nunca foi te perder. O que me assustava, todas as noites, era a ideia de ver tudo que sonhei para mim simplesmente abrir a porta e sair. O que me deixava em pânico era não saber quais seriam as cores que iriam colorir os meus sonhos a partir de agora. Era o medo de não acreditar novamente no amor, mesmo sabendo que ele renasce todas as vezes que a vida tenta me provar o contrário.

Mas eu preciso te confessar que as lembranças do que fomos ainda me assombra um pouco. Você sabe da minha mania de guardar cada detalhe vivido como um grande presente. É como se isso fosse uma forma de possuir todos os afetos que vivi pelo caminho, mesmo que a maioria se perca de vista.

A verdade é que eu ainda não consigo deixar nossas lembranças esquecidas por aí. Eu ainda insisto em procurar o que fomos em todos os cantos, como quem espera uma nova versão de você. Uma espécie de comparação automática com o amor que você me deu, uma busca constante por gestos parecidos com aqueles que me arrancaram sorrisos. Involuntariamente, eu desejo encontrar nós dois na próxima avenida de um carnaval qualquer, mas sem os erros que cometemos. O medo de nos perder tirou a chance de qualquer futuro a dois e, agora, a gente simplesmente precisa lidar com o que ficou. 

Daqui, ainda torço para que seu sorriso encontre um lugar seguro e amável, assim como desejo desistir dessa ideia de que o próximo amor virá pintado em tons de você. Eu sei que ainda ficaram pedaços dos meus afetos por aí e todas as histórias que escrevemos ainda estão guardadas nos livros empilhados na estante da tua alma. Cuida bem de tudo e saiba que você ainda mora em mim de alguma forma, ainda que segundas chances não façam parte dos melhores roteiros que eu escrevo diariamente.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 2 de abril de 2017

Pra quando você voltar


Para ler ouvindo "Casa Pronta"

Desculpa não ter dito antes, mas eu ainda te espero desde o dia em que você foi embora. Espero você como quem não espera muita coisa dos outros caras, como quem sabe que aquele beijo na festa de sábado não passará nem o domingo presente. Espero como se esse fosse só um tempo que a gente precisava para se perceber como a melhor dupla de todas, o melhor time que a vida poderia colocar em campo para a goleada do campeonato.

Eu te espero para outra tarde vendo o por-do-sol, enquanto teu ombro serve de encosto para todos os meus pensamentos depois de uma semana que parecia não ter fim. Espero todos os beijos clichês que faltaram para completarmos nossa lista de coisas óbvias que nos fazem felizes. Quem realmente se importa com o lugar comum quando é lá onde a gente descobre uma tal de felicidade?

Desculpa ter escondido, por tanto tempo, toda essa vontade de mais uma vez nos fazermos dois. Sentir teu cheiro forte em mim depois do abraço de despedida, sentir teu toque suave enquanto você me tira toda a roupa, sentir teu olhar me protegendo enquanto a noite cai. Desculpa ter escolhido passar tantos dias até sem o teu café amargo, teu mau humor matinal ou a cara emburrada que só você sabe fazer quando eu me atraso para um de nossos encontros no sábado.

Eu também te desculpo por não ter voltado antes. Te desculpo por ter escolhido me dar espaço em meio à confusão de sentimentos que a gente escolheu viver. Você sempre soube melhor que eu como entender o tempo das coisas. Era como não ver as flores em meio à tempestade, mas saber que o jardim ia florir após os pingos d'água. Eu só precisava de solidão, você só precisava de fôlego.

Todo o silêncio que morou entre nós se cansou dos não ditos e resolveu se entregar nas músicas que você compõe e nos poemas que eu rabisco. Os nossos desencontros foram motivos para entendermos que também existe beleza em estar só. As desculpas são findas. Sem culpa, tua volta fará meu riso mais fácil e teu coração mais leve. Só assim, poderemos, mais uma vez, ser par.

Texto de Patrick Moraes
Foto de José Neto

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O que sobrou de nós



Para ler ouvindo "Imergir"

Desculpa te escrever depois de tanto tempo, mas eu precisava te agradecer por ter feito parte de tudo que vivi nos últimos meses. As tuas ausências foram os melhores motivos para que eu pudesse me descobrir. Mesmo sabendo que aqui dentro ainda tem pedaços de uma casa que chamávamos de amor, eu sei que vários cômodos já estão arrumados depois da bagunça que você deixou.

A solidão se tornou companheira desde que você decidiu ir embora. Foi difícil entender que ela não era uma inimiga. Foi difícil não culpar você pela minha desordem, pela minha falta de coragem em trocar as fotos, arrumar a cama e abrir as janelas no dia seguinte. Ainda que a lembrança da tua ausência fizesse morada por aqui, eu aprendi a lidar com os fantasmas do que sobrou de nós. E todas as noites que eu senti medo pela tua falta, foi a solidão quem deitou comigo e fez de mim o melhor lugar para estar.

Desculpa ter fugido depois que você foi embora. Ter evitado tuas mensagens, teus telefonemas, tua tentativa de compensar o fim com uma história que não nos cabia mais. Existem histórias que simplesmente não têm continuação. Todos os pontos e vírgulas que nos seguraram chegaram à última página. As três palavras que nunca foram ditas deixaram de ser reticências a espera de um momento perfeito e se tornaram o ponto final do nosso livro.

Mas a nossa casa continua aqui, sendo refeita. Ontem eu olhei o jardim que costumávamos chamar de nosso e vi uma pequena rosa crescendo. Ainda é pequena diante das rosas que um dia nasceram aqui. Ainda é sutil diante do roseiral que cultivamos. Ainda nem é capaz de sobreviver por alguns dias se for arrancada cedo demais. Mas foi ela quem me fez sorrir quietinho, abraçado com a solidão. Foi ela quem me mostrou que só conseguimos colocar a casa em ordem quando a coragem de ser feliz de novo nos faz acreditar no tempo.

Mesmo que todos os clichês de esperar o tempo certo das coisas parecessem não fazer sentido quando a solidão me abraçou todas as noites em que você não estava, eu decidi esperar. Esperar que sua falta não fosse notada e que todos os cacos deixados no jardim fossem levados pelo mar. Esperar que outras fotos desenhassem as melhores lembranças e que novos discos cantassem outras histórias. Esperar que cada nova rosa trouxesse, mais uma vez, a beleza de construir um novo lar. Talvez demore um pouco mais, mas é a certeza de que ainda há vida sendo cultivada depois do fim que me mantém de peito aberto para o amanhã.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Ricardo William

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Eu tive que ir


Para ler ouvindo "2 Perdidos"

Desculpa ter ido embora sem me despedir. Na verdade, eu não tinha a intenção de te deixar por agora. Mesmo sem certeza alguma do futuro, eu acreditei em seus olhos da segunda vez em que eles encontraram os meus. Talvez tenha sido cedo demais para que dois abraços e uma hora de papo despertassem o que havia adormecido há meses. Mas quem é capaz de entender o tempo exato daquilo que a gente sente?

Eu queria ter ficado mais. Queria ter morado em teu peito por muitas noites e adormecido ao teu lado no meio de um filme qualquer. Queria ter ficado te olhando contar todos os mistérios do universo que você descobriu ou passar horas dizendo o quanto os astros foram bondosos ao combinar nossos signos. Eu realmente queria que a gente durasse mais alguns encontros até que a gente se desse conta que a dúvida sobre nós se perdeu no caminho dos afetos.

Mas eu tive que ir. Parecia cedo demais para cobranças e você é pássaro livre. Eu fiquei e você voou, como naturalmente acontece com quem não vive em gaiolas. Para ser bem sincero, não vejo mal nenhum em ter o céu como casa. Só que eu achei que voar a dois fosse o nosso destino. À noite, cansados, teríamos um ninho e todas as estrelas olhando por nós. Era o descanso afetuoso de nossas almas dizendo que a liberdade mais especial é aquela compartilhada com o amor.

Desculpa não ter sido claro. Fugir, às vezes, é a maneira natural que eu encontro de evitar dores maiores. Eu não saberia como começar a te contar o quanto eu queria ficar mais. Ficar em tua cama, só te vendo falar ao telefone enquanto sorria para mim. Ficar em teu corpo, descobrindo cada pedaço de prazer de um lugar que eu chamaria de casa com o tempo. Ficar em teus abraços, que sufocavam as dúvidas e perfumavam os meus dias.

Mas você desfez o que a gente havia arrumado, você desfez as certezas que a gente espera encontrar para seguir em frente. Voos rasos não chegam nem perto do céu que eu planejei para nós dois. Depois dos afetos, veio o deslize, e eu tive que ir em busca de outro ninho. Um novo par, um novo colo, um novo abraço para morar. Desculpa não ter ficado mais. Eu tive que ir por simplesmente não acreditar que seguir contigo seria a melhor forma de ser feliz. 

Texto de Patrick Moraes
Foto de Marcelo Morais

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Nós nunca dissemos "eu te amo"


Para ler ouvindo "Varrendo a Lua"

Nós nunca dissemos “eu te amo”. Nem quando nossos olhos brilharam no reencontro após sua viagem de quinze dias, nem quando as borboletas voaram depois que te deixei em casa após o primeiro encontro. Ensaiamos um “você é especial” e firmamos, com pedido, um relacionamento sério em pleno calor daquela noite de inverno. Usamos dezenas de músicas que pudessem substituir as três palavras mágicas e até concordamos em, carinhosamente, nos apelidarmos no dia a dia.

Nós nunca dissemos “eu te amo” porque faltava coragem de assumir o amor. Coragem, medo e um pouquinho de insegurança. Dizer “eu te amo” era expor a vulnerabilidade que meu coração se tornou desde que você chegou e ficou. Era como provar que você me afetava de tal forma que eu não era mais capaz de controlar totalmente o que eu sentia. Era o autocontrole se perdendo, mesmo que o desejo de ficar e amar se achassem cada dia mais.

Nós nunca dissemos “eu te amo”, porque, misteriosamente, essas três palavras juntas podem causar um estrago grande quando vêm da alma. E, mesmo gostando do estrago, a gente preferia se amar sem muitas palavras. Nosso amor transbordava nas entrelinhas do que diziam nossos olhos. Se faltassem as frases, sobrariam os gestos. Tuas mãos sabiam conversar tão bem com as minhas que qualquer diálogo falaria muito menos que os nossos silêncios.

Nós nunca dissemos “eu te amo” porque aprendemos a guardar nosso amor em uma grande torre de marfim. Sabíamos que ele existia, mas não era necessário dizê-lo todos os dias, ainda que isso fosse um tanto injusto com toda a história que construímos. Éramos o casal perfeito, até mesmo na imperfeição da distância e das diferenças. Éramos o exemplo do amor pra vida inteira, ainda que a tal combinação das três palavras não fosse dita.

Nós nunca dissemos “eu te amo”. Nem quando eu olhei para trás e me despedi, pela última vez, naquele terminal de ônibus. Você foi embora, sabendo que perderia a última chance de me fazer ficar. Eu fui embora, sabendo que poderia te convencer de que o amor ainda valia a pena. Dessa vez, nossos silêncios seguiram rotas diferentes e, sozinhos, recomeçaram um novo amor consigo mesmo.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Artur De Francischi

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A gente se perdeu do nosso destino



Para ler ouvindo "Who You Love"

Eram teus dedos marcados em minha pele e teus beijos escondidos em meu pescoço. Era tua mania de, por diversão, me tirar do sério e teu semblante de que nada mais importaria se eu estivesse deitado em teu peito aquela noite. Era até teu silêncio ao ouvir minhas histórias longas e a tua paciência em me ver experimentar pela vigésima vez a mesma camisa antes de sairmos para jantar. Era tudo que poderíamos ter sido se a gente tivesse ficado.

Mas entre as distâncias e as diferenças, saímos da rota e seguimos em vagões diferentes. Distantes, sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, perceberíamos como nossos destinos deveriam ter sido escritos na mesma página daquele livro. Próximos, a gente se perdia na inesgotável necessidade de ter razão e fugíamos. Nossos corações se transformaram em casulos tão pequenos que mal cabiam as certezas. Preferimos ignorar a saudade e deixar de fora o carinho que criamos sem nos darmos conta.

Quando nos encontramos ali, inesperadamente, na porta daquela festa, a gente se perdeu mais uma vez. Ou melhor, a gente não soube como se encontrar enquanto nossos olhos diziam o que nenhuma palavra seria capaz de explicar. Eu chegando, você saindo. Eu querendo falar, você sorrindo. Foi o medo do adeus que simplesmente nos conduziu para, novamente, seguir rotas opostas. Mas eu continuei olhando para trás e tendo a certeza de que seus olhos estariam me esperando. Eu continuei atentamente te vendo partir, em passos curtos e incertos. Você olhou antes de sumir de vez.

Mas a gente se reconheceu de novo. No bar perto da minha casa, eu com meus amigos, você chegando para mais um encontro que não te entregaria o que você queria. Você sabia que seu destino estava na mesa ao lado e nem ousava disfarçar. Inevitavelmente, eu torcia para que aquilo tudo não passasse de uma tentativa frustrada de superar o que fomos. Ou talvez o que poderíamos ter sido. Mas a teimosia nos tirou um do outro por incansáveis vezes.

Hoje, me peguei olhando a única foto que tiramos naquela manhã em que acordei com você tocando alguma música do John Mayer no violão. Me peguei pensando em como eu queria ter te apresentado a minha avó, mesmo que ela fosse te contar mil histórias da minha infância. Em como seria ter te convidado para um almoço de família no domingo e perdido a noção da hora entre a sobremesa e seu sorriso. Sorri imaginando como seria ter um mural cheio de você no meu quarto, ainda que você odiasse a minha mania de registrar tudo naquela máquina de congelar momentos.

Desejaria que as tardes mais vazias pudessem ser preenchidas com sua presença e que as piadas mais bobas existissem e fizessem sentido apenas para nós dois. Que seus braços fossem o melhor lugar para esquecer os cansaços da vida e que seu cafuné me lembrasse o quanto a delicadeza entre nós dois era gostosa. Eu queria te contar ainda muito mais coisas do que eu andei pensando sobre nós dois. Mas a gente se perdeu tantas vezes por aí que eu ando questionando como reunir todos os pedaços do que poderíamos ter sido se a gente tivesse ficado.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Matteus Palmeira

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O que sobra é sua falta


Para ler ouvindo "Quase Sempre"

Desculpa vir aqui novamente para falar sobre nós dois. Depois que você se foi, meu orgulho decidiu que não havia volta, não havia chance, não havia recomeço. Nossos caminhos seguiram rumos diferentes e eu decidi te esquecer na próxima curva, por escolha ou decreto. Decidi que, daquele adeus em diante, todos os afetos virariam pó e todas as lembranças seriam encaixotadas no porão que construí para abrigar o que não cabe mais na vida.

Duas semanas depois, sua ausência não incomodava tanto. O que antes sufocava virou alívio. Não tinha lugar para saudade. O vazio que a tua falta deixou foi o mesmo que me deu espaço para respirar: leve, corajoso e libertador. A incerteza do futuro ainda não estava nos planos, que, por sinal, acabei deixando para recomeçar depois. Um mês depois, as certezas foram embora e aqui estou eu: derrotado em mais uma luta contra nós dois.

Mesmo com a porta encostada e sua ausência no quarto, o lençol da cama está bagunçado e todas as poesias que escrevi em segredo permanecem guardadas na última gaveta, onde escondo aquilo que o coração nega. Você ainda está presente nos bilhetes espalhados pelos meus cadernos, no barbeador usado em cima do armário do banheiro, nas mensagens no celular que ainda não tive coragem de apagar, nas fotos da nossa primeira viagem espalhadas em meu mural. Você ainda se esconde na camiseta velha que você usava quando dormia aqui em casa, no seu lugar preferido para ver o jogo de futebol aos domingos, nas rolhas de cada vinho que guardávamos no pote em cima da estante da sala.

Mesmo que eu insista nessa história de que tudo virou passado, é meu travesseiro quem sabe o quanto nossas lembranças ainda são presentes noite após noite. É teu cheiro forte em outro pescoço que insiste em dizer o quanto a ausência da tua pele dói. São as músicas que cantávamos juntos dentro do carro que continuam fazendo sentido. São todas as crônicas, poesias e frases soltas que leio na tentativa de encontrar uma explicação para o que fomos ou, involuntariamente, criar a ilusão do que seremos.

Desculpa mais uma vez por vir aqui falar sobre nós dois. Eu continuo seguindo daqui, te desconhecendo dia após dia, refazendo meus planos noite após noite, aprendendo a conviver com os pedaços que você deixou em minha vida. Um dia, todas as nossas lembranças ganharão um novo sentido e você irá embora por inteiro. Só assim, eu saberei o que é viver com a sua ausência sem lidar com a saudade de nós.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Ricardo William

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Quando o amor virou passado


Para ler ouvindo "Calma aí"

Antes que você vá embora de vez, eu preciso confessar: eu te amei! Dos beijos no começo da manhã até o sussurro de "bons sonhos" na última mensagem de despedida. Dos olhos brilhando no seu pedido de nos fazer eterno até o cheiro do seu perfume que restava no travesseiro todas as vezes que você dormia aqui.

Eu te amei em cada vírgula da nossa história torta, em cada lágrima que escondi no escuro do quarto, em cada sorriso que suas surpresas provocaram. Eu te amei como quem esquece até mesmo de amar a si. Eu te amei nos goles de cerveja que dividimos no boteco da esquina, nas taças de vinho em noites que eram só nossas, nos devaneios noturnos em que meu prazer era seu orgasmo.

Antes que você feche a porta de vez, eu preciso te contar que você foi o meu melhor sonho e o pior pesadelo. Durante todos os dias que estive ao teu lado, eu te amei até mesmo na instabilidade que era te amar. Das suas friezas em dias de mau humor até a sua mania de me segurar no colo até eu confessar que era somente seu. Eu te amei quando a falta de razão era a única explicação para o amor.

Eu te amei até não saber amar mais ninguém, até desistir de encontrar em outros olhos o inexplicável que os seus me mostravam. Eu te amei mesmo depois da porta fechada, do celular continuar mudo, de te ver sorrindo em cada nova foto publicada. Eu te amei na imensidão da saudade, na solidão que a sua ausência causou e em cada foto que rasguei na tentativa de esquecer você.

Antes que eu perca a coragem, eu preciso te contar que eu realmente te amei. Mas assim como todo verbo encontra o tempo certo para existir, meu coração soube onde te colocar em minha história. As noites que me trouxeram a certeza do nosso amor, também confirmaram que sua ausência deixou de ser falta e passou a se chamar sossego.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Matteus Palmeira

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Deixa eu bagunçar você


Para ler ouvindo "Zero"

Esquece todos os seus medos hoje e se aconchega aqui do meu lado. Esquece aquele amor que ainda dói e todas as cicatrizes que carregam suas histórias no peito e na pele. Esquece a malinha de mão onde você guardou seus apegos e tudo que não te permite voar. Esquece a rotina que ainda te coloca em uma gaiola.

Esquece a porta aberta e me permite entrar. Deixa que os nossos silêncios falem por si. Esquece teu olhar em cima do meu e deixa que ele conduza toda poesia que nosso corpo implora. Esquece os segredos que você guarda e só se entrega. Faz desse encontro o lugar ideal para a liberdade que você tanto procura, e deixa eu te dizer o quanto nossos desejos estão certos.

Esquece teu abraço aqui em casa e, se der, volta para buscar. Esquece as datas, mas lembra os momentos. Esquece todas as vezes que a gente se desencontrou por qualquer motivo e dá crédito ao que o tempo reservou para nós. Faz de conta que a gente só tem o hoje e esquece os anseios do que nos aguarda.

Esquece o amanhã, as possibilidades, os poréns. Esquece todas as suspeitas que o incerto insiste em te convencer e deixa acontecer. Esquece o que não te faz rir e compartilha comigo tua felicidade. As cócegas deitado na cama, o susto daquele beijo roubado, o encontro inesperado naquele fim de tarde após o trabalho. Esquece a previsão e faz da gente o melhor acaso.

Esquece tudo que você arrumou desde os dezesseis anos: os planos, o pedido de namoro, o casamento, a casa, o quintal. Esquece o príncipe e o castelo imaginário, a história perfeita e o amor ideal. Esquece o coração aberto e deixa eu bagunçar você. Talvez assim a gente consiga se encontrar melhor e refazer nossas vidas no meio dessa bagunça que é amar.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Matteus Palmeira

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Carta ao menino de 16 anos


Para ler ouvindo "Piloto Automático"

Não se assuste. O mundo é bem diferente do que você acredita. Parece difícil enxergar que ainda virá muita coisa difícil pela frente, mas você vai precisar encarar. Continue planejando os próximos passos, só não se prenda demais a eles. Mais cedo do que imagina, você precisará mudar a direção, alterar a velocidade e seguir. O caminho nunca será previsível e qualquer mapa ainda será pouco perto da intuição que você usará como bússola.

Chore. Sempre que o peito apertar, não tenha vergonha de desabar. Pode ser sozinho, em seu quarto, ou no ombro de quem realmente está contigo. Nunca se deixe sufocar por nada. Respirar é o melhor remédio para aliviar as quedas, e o ar necessário pode vir de lugares que você jamais imaginaria tamanha simplicidade. Ah, você também vai entender o quanto estar em casa é valioso. A liberdade é ainda mais gostosa quando você continua conectado a suas raízes.

Duvide mais dos outros e menos de você. Cuida dessa mania de abrir seu coração ao menor sinal de afeto. Ouça mais, observe mais, acredite menos. Você vai perceber que a pessoa mais sincera que você encontrará é você mesmo. Fale com ela todas as noites antes de dormir e confie. Por mais confusa que as coisas pareçam estar, não existe melhor guia do que a voz que vem daí de dentro.

Ame. Se doer, ame de novo. Nunca desista do amor ainda que você colecione finais não tão felizes. Vai demorar de você entender que o amor é muito mais que relacionamentos sérios, olhos brilhando todos os dias e anéis de compromisso. Não se preocupe com as quedas, nem com o tempo que você levará para se recompor. Cada vez que a vida te negar a chance de continuar amando, encare como uma nova oportunidade de redescobrir o amor. Você é forte e conhecerá ainda mais o que cultiva dentro do peito. Você simplesmente nasceu para isso, e cada história vivida deixará seus sentimentos mais maduros e sua intuição ainda mais aguçada.

Tenha paciência. Não se cobre tanto, não ande tão depressa, não tente criar o mundo em sete dias. Existe uma sequência natural de fatos que precisa ser respeitada. Não exija de você aquilo que é de responsabilidade do tempo. Por mais dolorosa que cada etapa pareça ser, é a sabedoria de vivê-las que nos faz saber para onde estamos indo. Você poderá ter o mundo nas mãos, mas só vai conquistá-lo se for por partes.

Divirta-se. Quando tudo estiver no devido lugar, comemore. Quando nada estiver no lugar, permita-se esquecer de tudo e buscar um novo jeito de sorrir. O sorriso é a demonstração mais pura do que é estar pleno. Com o tempo, tenho certeza que você irá valorizar ainda mais as simplicidades do dia a dia, são elas que trarão a leveza para sua vida.

Apenas continue. Minha torcida sempre será para que nenhuma tempestade seja capaz de tirar a esperança dos seus olhos por mais um dia de sol. Meu desejo é que exista uma mão para te ajudar a levantar, mas que, antes de tudo, exista sempre uma força aí dentro para te dar impulso seja qual for o momento. E, mais importante do que tudo isso, que você continue buscando conhecer você mesmo, porque a descoberta honesta de si é o melhor presente que você ganhará todos os anos.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Jon Pereira

domingo, 10 de abril de 2016

Quando a gente terminou


Para ler ouvindo "Pois é"

Um dia me contaram que amar é como cultivar uma flor. No começo, você não consegue nem imaginar quais as cores que virão, mas acaba insistindo na terra molhada e na paciência. Aos poucos, as coisas tomam forma e os primeiros sinais de beleza já podem ser vistos naquele pequeno lugar que você aprendeu a chamar de seu. De repente, as pétalas aparecem e o encanto é tão grande que não cabe no peito tamanha alegria. Mas aí você precisa continuar regando, continuar acreditando dia após dia que nada continua florido se você não entrega um pedacinho de amor.

Só que, nos melhores jardins, algumas flores acabam morrendo. E foi aí que a gente terminou: quando você esqueceu que amor não cresce sozinho. A gente terminou quando perdemos a mania de naturalmente fazer o outro feliz; quando deixamos de ler os olhos do outro para alimentar nossos próprios egos. A gente terminou assim que viramos a esquina carregando no peito uma porção de orgulho. É que não cabe ser feliz sozinho quando se fala em amor a dois. Não cabe calar quando o peito aperta. Viver a dois é ser sorrisos e lágrimas juntos, ainda que custe abrir mão de outras coisas.

A gente se perdeu no caminho por acreditar mais em si mesmo do que em nós dois. Parecia que seríamos um casal até o último dia, com todas as histórias, lembranças e fotografias em que não estaríamos forçadamente sorrindo. A gente se perdeu por esquecer diariamente de se encontrar nos pequenos detalhes da vida. E quantas vezes a gente traçou nosso futuro em linhas que se encontravam no amor? Quantas vezes a gente sussurrou o quanto seríamos eternos? Pobres apaixonados. Acreditam no “felizes para sempre”, mas esquecem de fazer do hoje o lugar mais seguro e amável.

Perdemos todas as chances de dizer “eu te amo” por puro medo de ser cedo demais. Mas o tempo é tão relativo que não deixa claro quando o fim está perto. Nós esquecemos de remar, esquecemos de ajustar as velas, esquecemos de nos prevenir da chuva. Foi aí que nosso barco afundou. Só restaram as lembranças, algum resto de pétalas que foram morrendo com o tempo e uma nova semente escondida. Outra hora, meu bem, a gente decide plantar novamente o amor e cultivá-lo até o fim.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Geovane Peixoto

quinta-feira, 31 de março de 2016

Sobre ele


Para ler ouvindo "Conversa de Botas Batidas"

Ele prefere falar em primeira pessoa, se declarando entre pedras e rosas. Descobriu cedo que só vale a pena se importar com aquilo que vem de dentro. Se não provoca nada, não merece tanta atenção assim. Na verdade, ele é amante do acaso. Gosta de como a vida apronta surpresas e debocha de quem tem pressa. Gosta da mansidão do (a)mar, da leveza do sorrir, da luz dos olhos que clareia os pensamentos mais nebulosos.

Sempre soube que foi feito de coração e alma. Ainda que lhe falte um amor, lhe sobra o amar. Aprendeu que só é possível estar completo quando vale a pena estar sozinho. Entendeu que ninguém é capaz de preencher o vazio no peito se não há disposição para reconstruir sozinho os pedaços que estão em falta. Cresceu ouvindo que a solidão é triste, mas resolveu acreditar que a lua pode ser tão bonita quanto às constelações. No fundo, ele sabia que a beleza mora naquilo que traz paz.

Amou uma vez e jurou nunca mais amar de novo. A dor da perda parece irreparável e a decepção parece imperdoável. Mais tarde, descobriu que não era capaz de abandonar os riscos de ser feliz. Resolveu amar de novo e de novo e mais uma vez, quantas vezes fossem necessárias. É que o amor é infinito para quem acredita naquilo que é pleno, e ele sonhava em tornar eternas as borboletas que cultivava dentro de si.

Ele nunca gostou de distâncias, dessa coisa de ver a saudade fazer morada em dois peitos que só desejam estar juntos. Já chorou pelas ausências eternas, já teve o peito sufocado pelas ausências temporárias. Já brigou consigo mesmo por insistir em amar sem razão, por deixar o coração mandar no compasso da vida. No fundo, ele só queria dar abrigo eterno à ternura dos sorrisos, sem precisar fazer uma prece todos os dias para que as aflições da vida fossem discretas e passageiras.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Lucas Lima

sexta-feira, 18 de março de 2016

Desapega


Para ler ouvindo "Liberdade"

Desapega dessa ideia de que ele é o cara certo. A vida real não é feita de príncipes, castelos e felizes para sempre. No final de todo conto de fadas, existe uma realidade em forma de continuação. Desapega das lembranças dos primeiros meses e do peito em que você deitou algumas noites para fugir do mundo. A vida real é feita de momentos, e o tempo é o grande inimigo de quem deseja congelar qualquer sentimento.

Desapega dessa mania de dormir e acordar pensando nele. Aprende, de uma vez por todas, que você não consegue lidar com seus afetos excessivos. Desapega do perfume dele após o banho ou até daquele cheiro que fica grudado no travesseiro depois que ele vai embora. Desapega das músicas favoritas que ele cantarola o dia inteiro quando acorda de bom humor e da comida preferida que vocês costumavam dividir naquele restaurante da esquina.

Desapega dos sorrisos que combinaram por tanto tempo, mas que vem amarelando ultimamente quando vocês se encontram. Desapega do primeiro poema que ele dedicou para você e de todas as vezes que ele parecia ter sido o melhor presente que a vida trouxe. Desapega da casa com quintal, dos dois filhos e até daqueles programas furados que vocês conseguiam se divertir apenas por estarem na companhia um do outro.

Desapega da ideia de que sofrer é parte do amor. Apaixonar-se não é uma forma de automutilação. Viver o amor é dividir a vida de forma terna, tornar mais doce o que naturalmente virá amargando. Não precisa colocar tanto sofrimento no que nasceu para ser belo. Amor quando pesa precisa de desapego. Talvez seja a hora de você encontrar a felicidade naquilo que te faz livre.

Não precisa desistir do amor. Se bem lhe conheço, mais cedo ou mais tarde, você descobre uma nova forma de se apegar ao que virá. Só não esquece o quanto é especial tudo que você cultiva aí por dentro e nem deixa morrer a pureza dos seus sonhos mais doces. Permita-se viver a leveza de se bastar no melhor que mora em você. Para ser feliz de verdade, é preciso apaixonar-se todos os dias por quem você é.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Ricardo William

domingo, 6 de março de 2016

As histórias que ele contava por aí


Para ler ouvindo "Lost Stars"

Ele nunca foi bom com histórias reais. Sempre tropeçou nos primeiros meses, nas primeiras falhas, nos primeiros desencontros que chegam depois dos primeiros beijos e antes do “felizes para sempre”. Ele sempre foi bom mesmo nas histórias contadas em filmes e romances de sessão da tarde. E não é por falta de sentimento. Na verdade, ele sempre escorregou nos excessos. Sentia tanto que não era capaz de caber em si. 

É que ele guarda no peito uma espécie de bomba relógio e qualquer pequeno detalhe é capaz de causar uma explosão sem tamanho. Ele até tentou ser daqueles que se importa menos do que deve, que vive por si e o que vier é lucro, que não sente a diferença entre um “eu te amo” e o silêncio. Mas ele é feito de poesia, e o silêncio é como a arma letal capaz de anular qualquer confiança de quem sente demais.

Mesmo com medo, ele nunca foi de desistir daquele sonho de menino. A felicidade era como o pote de ouro em dias de chuva com sol, ainda que valesse muito mais a pena observar a caminhada em direção ao fim. Ele sabia que não seria tão fácil encontrar o final feliz, mas insistia. Insistia, mesmo com o descompasso dentro do peito, porque sabia que a indiferença não lhe cabia. Insistia buscando em cada pingo de água um motivo para renovar sua alma, para deixar levar aquilo que não fazia parte do que sonhava em ser.

Mesmo crescido, ele ainda tinha medo do escuro. Suas inseguranças não reagiam bem com a ausência do que pode ser visto. Ainda que os outros sentidos fossem tão preciosos pra ele, o que era exposto tornava as reações mais reais e menos imaginárias. Ele cresceu com receio dos fantasmas do sentir. Se fosse noite, ele procurava se aninhar em algum canto de luz até amanhecer, até que todos os monstros que se escondiam dentro de si pudessem voltar a dormir.

Sempre acreditou em intuição e teimava em ser apenas aquilo que lhe fazia bem. Encher o peito de afeto era quase um mantra, que repetia todas as vezes que o mundo parecesse cinza demais. Mesmo depois de todos os desafetos da vida, ele sabia que cada cicatriz era mais uma prova de quanto ele era forte. Entre erros e acertos, bagunças e aconchegos, gargalhadas e lágrimas, ele sempre encontrava as peças certas para começar e terminar qualquer história.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Geovane Peixoto