segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Eu tive que ir


Para ler ouvindo "2 Perdidos"

Desculpa ter ido embora sem me despedir. Na verdade, eu não tinha a intenção de te deixar por agora. Mesmo sem certeza alguma do futuro, eu acreditei em seus olhos da segunda vez em que eles encontraram os meus. Talvez tenha sido cedo demais para que dois abraços e uma hora de papo despertassem o que havia adormecido há meses. Mas quem é capaz de entender o tempo exato daquilo que a gente sente?

Eu queria ter ficado mais. Queria ter morado em teu peito por muitas noites e adormecido ao teu lado no meio de um filme qualquer. Queria ter ficado te olhando contar todos os mistérios do universo que você descobriu ou passar horas dizendo o quanto os astros foram bondosos ao combinar nossos signos. Eu realmente queria que a gente durasse mais alguns encontros até que a gente se desse conta que a dúvida sobre nós se perdeu no caminho dos afetos.

Mas eu tive que ir. Parecia cedo demais para cobranças e você é pássaro livre. Eu fiquei e você voou, como naturalmente acontece com quem não vive em gaiolas. Para ser bem sincero, não vejo mal nenhum em ter o céu como casa. Só que eu achei que voar a dois fosse o nosso destino. À noite, cansados, teríamos um ninho e todas as estrelas olhando por nós. Era o descanso afetuoso de nossas almas dizendo que a liberdade mais especial é aquela compartilhada com o amor.

Desculpa não ter sido claro. Fugir, às vezes, é a maneira natural que eu encontro de evitar dores maiores. Eu não saberia como começar a te contar o quanto eu queria ficar mais. Ficar em tua cama, só te vendo falar ao telefone enquanto sorria para mim. Ficar em teu corpo, descobrindo cada pedaço de prazer de um lugar que eu chamaria de casa com o tempo. Ficar em teus abraços, que sufocavam as dúvidas e perfumavam os meus dias.

Mas você desfez o que a gente havia arrumado, você desfez as certezas que a gente espera encontrar para seguir em frente. Voos rasos não chegam nem perto do céu que eu planejei para nós dois. Depois dos afetos, veio o deslize, e eu tive que ir em busca de outro ninho. Um novo par, um novo colo, um novo abraço para morar. Desculpa não ter ficado mais. Eu tive que ir por simplesmente não acreditar que seguir contigo seria a melhor forma de ser feliz. 

Texto de Patrick Moraes
Foto de Marcelo Morais

Um comentário:

Plínio Gomes disse...

Caramba. E quantas vezes me vi fugindo para evitar 'dores maiores' e acabar sentindo tanta dor, também. E o pior que ficou aquele gosto perdido de - e se eu tivesse insistido um pouco mais?
Lindo texto!