domingo, 3 de abril de 2011

Despedaço


Já pensou que quando o trem sai da estação e você simplesmente desistiu de partir, mesmo com as malas prontas, você já não poderá mais entrar nele? Aquela oportunidade de emprego que você resolveu não aceitar, aquele convite para um simples sorvete em uma tarde de domingo que você recusou, tudo que um dia construiu sentado na areia da praia e resolveu entregar às ondas do mar?

Depois de dizer "não" é sempre complicado voltar atrás, depois de virar o rosto é sempre difícil encarar diretamente nos olhos, depois de esquecer é trabalhoso se fazer lembrança. Quantas vezes a gente abre mão sem perceber, dá um passo pra esquerda e não entende que logo em frente existe o verdadeiro tesouro. Às vezes retornar a estrada não é simplesmente engatar a marcha ré de um carro e acelerar. É preciso compreender que determinadas trilhas vão se despedaçando a cada nova curva, que a paisagem lateral se faz de galhos, folhas e, por que não, de horizontes vazios.

Perder a oportunidade de viver outros sorrisos com alguém pelo simples medo de tentar é covardia. Mas perder alguém pela simples covardia de não saber dar valor é incompreensível. Aquela história de a gente só dá valor depois que perde é a pior forma de encarar uma relação que foi pro espaço. Mas antes de ela pegar a nave, a gente se permite cultivar todas as ferramentos de um vôo sem destino de volta. Depois que o pote de jujubas cai no chão, difícil não é conseguir catar as verdinhas preferidas, mas sim colar os pedaços de vidro e se livrar daqueles que se perderam no áçucar sem gosto.

Deixar vazios é charmoso, cativa e cultiva o desejo. Mas toda dose errada é capaz de estragar as melhores intenções. E quando você pensar em viajar de novo, aquele trem já partiu, dança em outros trilhos e a cadeira que seria sua, talvez se encontre ocupada com outra mala, menos sedutora, mas bem mais aconchegante.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 27 de março de 2011

Ironicamente

E quem teria imaginado... isso acontece!
Alanis Morissette

Essa noite nem tinha aquela grande lua cheia para eu sentir o desejo de deitar em teus braços e por pelo menos mais uma vez sentir o toque dos teus dedos e o olhar bobo de criança que sabe o quanto está brincando errado. Essa noite eu não esperaria o celular tocar com teu número no visor, muito menos o bipar de umas três ou quatro linhas escritas pra dizer como foi o dia. Essa noite eu não teria a irônica sensação de estar me completando depois do pedaço vazio que sobrou das linhas tortas daquele carnaval.

Ainda sinto falta da atenção inesperada, da voz mimada que embaraçava meus sentimentos na tentativa de me tornar mais uma vez o menino enfeitiçado por uma paixão adolescente e idiota. Brincar sempre foi seu forte, mas quando se tem a chance de jogar novamente a partida fica mais difícil. Eu sei que gosto de jogos, me seduz a simples ideia de mais uma partida onde o risco de sair de campo derrotado é grande. Dessa vez, acho que nem chegamos a rodar o placar, ou simplesmente eu te mostrei que não valiamos a pena assim. Suas regras não contemplam meu tabuleiro e meus peões não conseguem chegar no grand finale do seu.

Agora que eu estacionei o carro na garagem de casa, ironicamente Alanis veio me dizer que quando tudo está ok, a vida simplesmente tem um jeito engraçado de aprontar com você. Talvez tenha sido isso, mais uma piada boba, um simples divertimento de verão, que o vento acabou de levar. Abaixei o banco e fechei os olhos por alguns minutos. Consegui lembrar do beijo roubado no meio da multidão, dos teus olhos cheio de dúvida enquanto eu deitava no seu ombro e daqueles mesmos olhos sorrindo com o coração na mão. Coração doce! Coração que não resiste muito tempo sendo usado. Derrete e acaba. Ironicamente, consegui guardar aquilo tudo com carinho e passar adiante. Quem ousou pensar que vale a pena remoer etapas finalizadas realmente não conhece o sabor das novidades. Você continua nas melhores lembranças, nos cantinhos que consegui ajeitar cheio de doces sorrisos, mas, ironicamente, já não faz mais parte de mim depois que abri os olhos essa noite.

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sinal fechado

What I have to say can't wait, all I need is a day, so let's runaway.
Bruno Mars

Engraçado como um tijolo fora do lugar é capaz de derrubar um prédio inteiro. Já pensaram em quanta coisa poderia ter sido diferente se uma mera peça do quebra cabeça estivesse torta ou se encaixasse em outro lugar? O despertador que não tocou, a chave do carro que você esqueceu na mesa do escritório e voltou pra buscar, o dia que adiou a academia por mero desleixo, a festa que deixou de ir porque simplesmente preferiu chorar por um relacionamento fracassado.

Me dei conta hoje que você é uma dessas peças de quebra cabeça que veio torta. Bem ou mal, tô desmontando um pedaço de mim aos poucos só pra reconstruir um caminho mais rápido de chegar até você. É aquela história do sinal fechado, da luz vermelha, do momento em que aquele velho boné conseguiu me colocar em estado de espera. Incessante e aterrorizante espera! Sou capaz de dizer que você é aquela placa de contramão no caminho que eu cruzava todos os dias. O mero detalhe que consegui enxergar de novo, que conseguiu modificar de novo.

E hoje eu seria capaz de mudar os horários de cada despertador que aparecessem só pra fazer a cidade amanhecer mais rápido. Pegar cada segundo de suspiro só pra dá uma fugida e te olhar, ao menos de longe, pra ver que tá tudo bem. Hoje eu queria ficar instável na estabilidade dos teus braços, na incerteza dos próximos dias, no pulsar agitado do teu corpo e no simples sussurar em meus ouvidos. Eu queria mesmo uma via fora da principal que me levasse no alto daquela montanha e calassem todos os segredos em gestos. Trocar olhares por beijos, silêncio por gemidos, sonhos por toques. Eu sei que o prédio construído até poucos dias atrás está perto de desabar, mas certos tijolos merecem a chance de ser trocados assim que o sinal vermelho acende.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 11 de março de 2011

Linhas tortas de um Carnaval


Escrevo com tanto tremor
as linhas tortas de um Carnaval
que pareço viver agora
a intensidade do teu abraço.

Já havíamos decidido ser outros dois e nos fazer um casal diferente daquela construção mal acabada. Resolvi te dar a chance de mais uma vez ser, no mínimo, companheiro. Eu até pensei na possibilidade de me atrair de novo, mas o coração só chiou baixinho quando te vi na primeira vez. Superei e ainda sairíamos amigos disso tudo. Ótimo se fosse assim!

Pontualidade realmente não te pertence. Acho que em sua fabricação esqueceram o relógio e acrescentaram mais mãos do que deveria. Mãos de afago, mãos de cafuné gostoso, mãos de um simples segurar na cintura. E de repente eu queria sentir toda a felicidade daquele lugar, engolir cada simples sorriso que exalava dos quatro cantos e subir, o mais alto que eu pudesse, gritando cada pedaço da música. Dançamos, sorrimos e você disse que naquele momento me queria. O chiado simplesmente emudeceu e sorriu, baixinho ainda, tímido. Te dei a possibilidade de me fazer feliz e você conseguiu tornar inesquecível. Se amanhã não for, não tem tanta importância, você foi inteiro ali, comigo. Nossos olhos se beijavam e teu sorriso queria me devorar.

Aí veio a vontade de mais. Veio o desejo de te fazer companhia por pelo menos mais algumas horas, de uma tarde de final de Carnaval. Resolvi arriscar, deixar que os foliões alegres moressem de inveja de nós dois, e sorrir do teu lado naquela fila imensa do cinema de quarta. Resolvi simplesmente me permitir a sensação de perigo. Ganha o jogo quem conseguir levar tudo isso adiante, ganha o jogo quem conseguir sorrir a cada vez que encontrar os olhos pidões do outro. Só perde quem não quiser ganhar, e isso não é assunto pra um dado que mal começou a rodar.

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sem remo


But there's a side, to you, that I never knew, never knew.
All the things you say they where never true, never true.
Adele

Ilhado. Cadê o barco que eu deixei escorado logo ali perto pra fugir em situação de emergência? Cadê a boia laranja que eu guardei com tanta força pra simplesmente saber usá-la quando preciso? Parece que foram embora todos os poréns e ficaram as angustiantes condicionais do se. Sinto-me preso em meio a tantos iguais que conseguem me ilhar num íntimo imperfeito, ou perfeito demais. Talvez eu sonhe com o brilhantismo, o papel perfeito para mostrar que existe sim valores. Mas me prendi na fantasia de um cisne, nem negro nem branco, apenas cheio de asas cortadas que não conseguem se mover. Sinto que minhas fases de maturação resultam sempre na decepção por escolhas erradas e consequências terrivelmente arrasadoras.

O que parece ser boneco de vitrine é tão oco que num simples esbarrão se transforma em cacos. Verdade seja dita, os grandes encantos começam pelos olhos, mas não se satisfazem nele. Esquecer os carinhos que pareciam tão sinceros se torna fácil depois de tanta sujeira, de tanta mentira inventada com o simples propósito de tornar valores descartáveis. Te recriei agora em duas palavras, assim como você se inventou em duas pessoas. Já não consigo distinguir a cachorrada da covardia e talvez nem você consiga separar tão fácil assim. Vive junto com ambos e alimenta os dois em medida tão compaçada que acaba tropeçando nas pedras que sem querer escapa do seu bolso.

Mesmo frágil, mesmo com autopunições, mesmo com a terrível mania de perfeccionismo amoroso atormentando cada milésimo de segundo que tento reorganizar a bagunça de um simples final de semana, a vida continua. E você? Você simplesmente passa com uma marca negra, aprendendo que fazendeiro que não tem condições de cuidar da plantação grande, acaba não colhendo nada quando o temporal chega.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 30 de janeiro de 2011

Confessional Dois


Eu sei guardar segredo
Eu sei amar.

(Sandy Leah)

Troquei a blusa, tirei o tênis, peguei um pedaço de papel velho e escrevi a palavra mais importante do mundo nessa noite: CANSEI. É, nada mais me basta e dizer isso parece nem bastar para que meus sentidos se dêem conta e saiam em busca de um outro cansaço menos fadigado. Olhei pra trás e percebi que as últimas marcas pisadas nem de lama eram, ficaram tão fracas que mal consigo deduzir de que lado que eu vinha. A caneta começou a falhar bem na hora que eu ia escrever as primeiras letras da palavra amor. Só podem estar de brincadeira! Eu sei que amor que se preze a gente não encontra na esquina, meia noite de um sábado. Acredito mesmo é na fila da carne dentro do supermercado, em uma saída despretensiosa para comprar o pão ou, fatalmente, em uma batida de carro na esquina do prédio.

E se desespero é sinônimo de carência, talvez meu dicionário precise de algo um pouco parecido para conseguir explicar o meu desassego. A ideia de estabilidade me parece agora a pior possibilidade, preciso é de tremor, calafrios e uma necessidade angustiante no peito de repetição. Ser livre me basta até o ponto em que não sei mais pra onde dirigir e, em meio a ruas desertas, resolvo fazer a volta, pela contramão, e estacionar em casa. Subo, 65 degraus, e deito. Aqui talvez me baste e aqui talvez eu queira voltar sempre que doer. Uma hora da manhã, a noite terminou!

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Confessional


We were born and bred in a summer haze bound by the suprise.
(Adele)

Sexta-feira, nublada, chuvosa, do jeito que há muitos dias eu não sentia. Ainda estava naquela cidade, ainda vivia em pleno verão, mas talvez aquele fosse um pequeno indício que nada permanece como está pra sempre. Já não sei mais o que me basta, acho que sumiram com a peça do quebra cabeça que continua a sequência de amores inacabados e alucinantes. Rasgaram! A folha rosa citilante caiu na poça de lama logo ali em frente e perdi a vontade de me melar para salvá-la. Experimentei novidades da mesma essência sem consistência e vazias.

Cheguei até a passar na porta do passado, e, por pura fragilidade, olhei pelo portão em busca de uma luz acessa. E se tivesse luz? Já não sei se prefiro ficar no escuro ou me fazer cego em meio a holofotes descaradamente sofríveis. Mas passado gostoso que se preze tem que machucar pra ser lembrança. Cresci aqui, mas parece que deram corda para o boneco agora. Talvez eu queira um eterno verão, sem amarras, com uma dose de segredos, porém com um queimor angustiante no final da noite.

Acabei aceitando a caixa de chocolate e deixando o sentimento de cada bombom de lado. Não me tornei amargo, só não quero ser doce a ponto de enjoar na última mordida. Antes do final a gente pode escolher parar e dar continuidade em outra frequência. E melhor que sejamos sinceros, que fiquemos perdidos em nossas confusões e que, mais cedo que ontem, você descubra o quanto eu posso tropeçar em certezas. Não, eu simplesmente crio barreiras quando a visita não é bem vinda. Nos demais casos? As portas vivem destrancadas, é só bater com jeito e limpar os pés no tapete vermelho antes de entrar.

Texto de Patrick Moraes