terça-feira, 14 de junho de 2011

Chance

Is it gonna take a long time to love?
adaptado de P!nk

Aquela desculpa de se encontrar em meio ao desencontro de corações e almas já não convence um íntimo que insiste em uma crise existencialista do amor ideal. No fundo, já não sei se a bola da vez é errada ou se, simplesmente, tenho medo de amar. Já não consigo pisar em falso e de repente dar com a cara no chão, mesmo tendo as melhores certezas depois daquela noite juntos. Já não posso colocar a culpa em um passado que nem existe mais, foi diluído em tantos pedaços que é capaz de ser confundido com átomos de amor suprimido. Mas mesmo assim, uso das diferenças para criar defeitos, pra encontrar poréns, pra ser um exemplo de aventureiro que resolveu vestir a armadura e sair em uma batalha contra o inimigo que não existe.

Talvez seja melhor juntos, tentar encarar teus defeitos e de uma vez por todas aprender que vale mais ser amado que amar. Preciso esquecer a ideia de ter prazer com sofrimento, de querer a dúvida e cultivar amores que não me dão certezas. Se for certo demais, não me serve. Se for fácil demais, já me enjoa! Tudo soa clichê mesmo sendo o contrário daquelas comédias românticas de sessão da tarde. O pior é que você não foi quem eu briguei durante todo o roteiro e no final acabamos trocando amores dentro de um bar tailandês em um encontro meramente pelo acaso. Você é a perfeição de carinhos, sentimentos e uma dose de efusividade amorosa que me assusta. Tua entrega é minha excitação e teu beijo foi o suficiente pra me fazer pensar no amanhã como uma boa possibilidade. Preciso desarmar aquele guerreiro alucinado por lembranças tão bem vividas que se tornaram frustações eternas. Preciso me dispor a viver turbilhões de sentimentos presos a um só ser, que seja capaz de me trazer suspiros. Me tragam cargas, me tragam életrons enfurecidos pela falta do teu toque, que eu retribuo com certezas as dúvidas que eu alimento.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 27 de maio de 2011

De volta

I forgive you once again.
Adele

Pronto, aqui estou no retorno de uma estrada que talvez tenha uma saída bem distante, um cruzamento sem placas de orientação e um engarrafamento de sensações. Eu preciso estar de volta e precisava mais ainda terminar uma viagem que abandonei por conta de um atalho mal tomado. Falando em atalho, a via principal congestionou depois de tanta atenção, de uma velocidade acelerada de saudade com desejo, de um simples tocar de corpos naquela noite fria. Aconchego, calor, teus olhos pequenos, suas mãos grandes e um aperto desesperado no peito. Eu era uma bomba relógio pronta pra explodir com a próxima frase que saísse de sua boca. Por sorte, você falou pouco! Queria tantas outras coisas que até as minhas palavras se perderam na estrada principal, deixei do lado de fora e fechei a porta do carro.

Desesperador a aflição de não saber onde exatamente eu ia conseguir fazer o retorno e seguir adiante. Desesperador saber que uma hora você decidiria puxar o freio de mão discretamente e eu perderia o domínio do volante que tanto ensaiei durante meses. Mas eu escolhi essa rota, mesmo sabendo que no primeiro desvio eu poderia mais uma vez fugir, correndo, machucado e sangrando. Mero engano achar que a gente sempre está preparado pra uma nova fuga, um novo combate. Não dá pra anular esperanças quando se ama, não dá pra esconder afetividades quando se existe um amontoado delas. E foi só Adele tocar no som do carro pra eu perceber que talvez não exista mais um "nós" tão forte como antes, talvez o tempo nos fez perder o vulcão de similaridades que um dia nos tornou só amores. Amores e uma dose asustadora de inseguranças.

E hoje eu resolvi não me entender mais, não me punir mais, não me torturar com tantas dúvidas que insisto na razão de ser mais fácil. Fácil mesmo é viver, sem pensar, apenas desejando, sentindo e fazendo. Não estou tão pronto pra te encarar em uma situação avessa a que vivemos algum tempo atrás, mas estou disposto a me encontrar na solidão de dois, na tentativa furada de construir um castelo de areia sem baldes ou se quer uma pázinha de plástico. No máximo ganho uma onda pra destruí-lo em segundos e decido recomeçá-lo em outro lugar na praia, mas perto do mar!

Texto de Patrick Moraes

terça-feira, 26 de abril de 2011

Zona de conforto


Like I'm the only one that's in command
Rihanna

Não compreendi muito bem as últimas palavras que você me disse assim que saiu da porta de minha casa. Pra falar a verdade, prestei tanta atenção em teus olhos marejados de um sentimento confuso pra mim, que se quer decifraria meia dúzia de palavras saindo da sua boca. Só sei que ainda te guardo em cada simples detalhe e, insuportavelmente, te menciono nas conversas de bar que tenho com cada nova oportunidade de um novo amor. Meu problema é justamente esse, tentar te achar em cada novo encontro, em cada descoberta. Não existe redescoberta de você, a não ser que seja contigo e isso é barco furado com destino certo: o naufrágio.

E me pego pensando o quanto Murphy insiste em roubar a reciprocidade da minha vida. O quanto meu olhar detalhado desnuda cada pessoa em busca de uma perfeição, onde até mesmo os defeitos devem ser perfeitos pra mim. Não acho que esteja errado em querer pular fora na primeira tentativa de suicídio que me provocarem, na primeira repulsa por uma atitude que simplesmente não se encaixe. Mas acho bem triste não conseguir me livrar da espera pelo cavalo branco. Não existe contos de fadas em histórias onde o mocinho também encarna o vilão. Definitivamente, papéis bem definidos não entram em meu roteiro e isso acaba apontando direções que me perco antes mesmo de chegar. O pote de ouro, é isso! Talvez esteja atrás dele, escondido entre um galho seco e uma folha recém caída do pé. O problema é a rota, a infinidade de tropeços e a minha incansável necessidade de virar a direita quando todos mandam seguir em frente.

E nesses atalhos, ou caminhos alternativos, ou buscas desesperadas por uma esconderijo secreto, que eu encontro divertidas razões para sorrir. Mesmo que temporárias, mesmo que doídas, mesmo que ordinariamente efêmeras. São nelas que consigo descobrir pedacinhos invisíveis de mim, de mudanças contínuas, de curiosidade por outros espaços preenchidos aqui dentro. É um você que reflete os pequenos deslizes e as grandes bagunças, um você que tem tanto de mim, mas com marcas que um dia eu tive e cansei de expô-las. O pior é pensar que consegui abandonar a minha essência e perceber que isso é querer negar uma verdade através de um argumento fundando em mudança. Mudar é adequação. Mais cedo ou mais tarde, você se dá conta que adequou o que tinha aos espaços que te deram agora de uma forma diferente.

E com tantos caminhos trocados, papéis invertidos, mudanças que acontecem sutilmente e um incômodo bobo que marcou o passado, é hora de entender o quanto a zona de conforto te cabe. Sem aperto, sem estar excessivamente folgada, mas na medida certa para entender que as dimensões da sua vida podem ser ocupadas sem se preocupar com os objetos que você carrega do lado.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 3 de abril de 2011

Despedaço


Já pensou que quando o trem sai da estação e você simplesmente desistiu de partir, mesmo com as malas prontas, você já não poderá mais entrar nele? Aquela oportunidade de emprego que você resolveu não aceitar, aquele convite para um simples sorvete em uma tarde de domingo que você recusou, tudo que um dia construiu sentado na areia da praia e resolveu entregar às ondas do mar?

Depois de dizer "não" é sempre complicado voltar atrás, depois de virar o rosto é sempre difícil encarar diretamente nos olhos, depois de esquecer é trabalhoso se fazer lembrança. Quantas vezes a gente abre mão sem perceber, dá um passo pra esquerda e não entende que logo em frente existe o verdadeiro tesouro. Às vezes retornar a estrada não é simplesmente engatar a marcha ré de um carro e acelerar. É preciso compreender que determinadas trilhas vão se despedaçando a cada nova curva, que a paisagem lateral se faz de galhos, folhas e, por que não, de horizontes vazios.

Perder a oportunidade de viver outros sorrisos com alguém pelo simples medo de tentar é covardia. Mas perder alguém pela simples covardia de não saber dar valor é incompreensível. Aquela história de a gente só dá valor depois que perde é a pior forma de encarar uma relação que foi pro espaço. Mas antes de ela pegar a nave, a gente se permite cultivar todas as ferramentos de um vôo sem destino de volta. Depois que o pote de jujubas cai no chão, difícil não é conseguir catar as verdinhas preferidas, mas sim colar os pedaços de vidro e se livrar daqueles que se perderam no áçucar sem gosto.

Deixar vazios é charmoso, cativa e cultiva o desejo. Mas toda dose errada é capaz de estragar as melhores intenções. E quando você pensar em viajar de novo, aquele trem já partiu, dança em outros trilhos e a cadeira que seria sua, talvez se encontre ocupada com outra mala, menos sedutora, mas bem mais aconchegante.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 27 de março de 2011

Ironicamente

E quem teria imaginado... isso acontece!
Alanis Morissette

Essa noite nem tinha aquela grande lua cheia para eu sentir o desejo de deitar em teus braços e por pelo menos mais uma vez sentir o toque dos teus dedos e o olhar bobo de criança que sabe o quanto está brincando errado. Essa noite eu não esperaria o celular tocar com teu número no visor, muito menos o bipar de umas três ou quatro linhas escritas pra dizer como foi o dia. Essa noite eu não teria a irônica sensação de estar me completando depois do pedaço vazio que sobrou das linhas tortas daquele carnaval.

Ainda sinto falta da atenção inesperada, da voz mimada que embaraçava meus sentimentos na tentativa de me tornar mais uma vez o menino enfeitiçado por uma paixão adolescente e idiota. Brincar sempre foi seu forte, mas quando se tem a chance de jogar novamente a partida fica mais difícil. Eu sei que gosto de jogos, me seduz a simples ideia de mais uma partida onde o risco de sair de campo derrotado é grande. Dessa vez, acho que nem chegamos a rodar o placar, ou simplesmente eu te mostrei que não valiamos a pena assim. Suas regras não contemplam meu tabuleiro e meus peões não conseguem chegar no grand finale do seu.

Agora que eu estacionei o carro na garagem de casa, ironicamente Alanis veio me dizer que quando tudo está ok, a vida simplesmente tem um jeito engraçado de aprontar com você. Talvez tenha sido isso, mais uma piada boba, um simples divertimento de verão, que o vento acabou de levar. Abaixei o banco e fechei os olhos por alguns minutos. Consegui lembrar do beijo roubado no meio da multidão, dos teus olhos cheio de dúvida enquanto eu deitava no seu ombro e daqueles mesmos olhos sorrindo com o coração na mão. Coração doce! Coração que não resiste muito tempo sendo usado. Derrete e acaba. Ironicamente, consegui guardar aquilo tudo com carinho e passar adiante. Quem ousou pensar que vale a pena remoer etapas finalizadas realmente não conhece o sabor das novidades. Você continua nas melhores lembranças, nos cantinhos que consegui ajeitar cheio de doces sorrisos, mas, ironicamente, já não faz mais parte de mim depois que abri os olhos essa noite.

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sinal fechado

What I have to say can't wait, all I need is a day, so let's runaway.
Bruno Mars

Engraçado como um tijolo fora do lugar é capaz de derrubar um prédio inteiro. Já pensaram em quanta coisa poderia ter sido diferente se uma mera peça do quebra cabeça estivesse torta ou se encaixasse em outro lugar? O despertador que não tocou, a chave do carro que você esqueceu na mesa do escritório e voltou pra buscar, o dia que adiou a academia por mero desleixo, a festa que deixou de ir porque simplesmente preferiu chorar por um relacionamento fracassado.

Me dei conta hoje que você é uma dessas peças de quebra cabeça que veio torta. Bem ou mal, tô desmontando um pedaço de mim aos poucos só pra reconstruir um caminho mais rápido de chegar até você. É aquela história do sinal fechado, da luz vermelha, do momento em que aquele velho boné conseguiu me colocar em estado de espera. Incessante e aterrorizante espera! Sou capaz de dizer que você é aquela placa de contramão no caminho que eu cruzava todos os dias. O mero detalhe que consegui enxergar de novo, que conseguiu modificar de novo.

E hoje eu seria capaz de mudar os horários de cada despertador que aparecessem só pra fazer a cidade amanhecer mais rápido. Pegar cada segundo de suspiro só pra dá uma fugida e te olhar, ao menos de longe, pra ver que tá tudo bem. Hoje eu queria ficar instável na estabilidade dos teus braços, na incerteza dos próximos dias, no pulsar agitado do teu corpo e no simples sussurar em meus ouvidos. Eu queria mesmo uma via fora da principal que me levasse no alto daquela montanha e calassem todos os segredos em gestos. Trocar olhares por beijos, silêncio por gemidos, sonhos por toques. Eu sei que o prédio construído até poucos dias atrás está perto de desabar, mas certos tijolos merecem a chance de ser trocados assim que o sinal vermelho acende.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 11 de março de 2011

Linhas tortas de um Carnaval


Escrevo com tanto tremor
as linhas tortas de um Carnaval
que pareço viver agora
a intensidade do teu abraço.

Já havíamos decidido ser outros dois e nos fazer um casal diferente daquela construção mal acabada. Resolvi te dar a chance de mais uma vez ser, no mínimo, companheiro. Eu até pensei na possibilidade de me atrair de novo, mas o coração só chiou baixinho quando te vi na primeira vez. Superei e ainda sairíamos amigos disso tudo. Ótimo se fosse assim!

Pontualidade realmente não te pertence. Acho que em sua fabricação esqueceram o relógio e acrescentaram mais mãos do que deveria. Mãos de afago, mãos de cafuné gostoso, mãos de um simples segurar na cintura. E de repente eu queria sentir toda a felicidade daquele lugar, engolir cada simples sorriso que exalava dos quatro cantos e subir, o mais alto que eu pudesse, gritando cada pedaço da música. Dançamos, sorrimos e você disse que naquele momento me queria. O chiado simplesmente emudeceu e sorriu, baixinho ainda, tímido. Te dei a possibilidade de me fazer feliz e você conseguiu tornar inesquecível. Se amanhã não for, não tem tanta importância, você foi inteiro ali, comigo. Nossos olhos se beijavam e teu sorriso queria me devorar.

Aí veio a vontade de mais. Veio o desejo de te fazer companhia por pelo menos mais algumas horas, de uma tarde de final de Carnaval. Resolvi arriscar, deixar que os foliões alegres moressem de inveja de nós dois, e sorrir do teu lado naquela fila imensa do cinema de quarta. Resolvi simplesmente me permitir a sensação de perigo. Ganha o jogo quem conseguir levar tudo isso adiante, ganha o jogo quem conseguir sorrir a cada vez que encontrar os olhos pidões do outro. Só perde quem não quiser ganhar, e isso não é assunto pra um dado que mal começou a rodar.

Texto de Patrick Moraes