domingo, 6 de março de 2016

As histórias que ele contava por aí


Para ler ouvindo "Lost Stars"

Ele nunca foi bom com histórias reais. Sempre tropeçou nos primeiros meses, nas primeiras falhas, nos primeiros desencontros que chegam depois dos primeiros beijos e antes do “felizes para sempre”. Ele sempre foi bom mesmo nas histórias contadas em filmes e romances de sessão da tarde. E não é por falta de sentimento. Na verdade, ele sempre escorregou nos excessos. Sentia tanto que não era capaz de caber em si. 

É que ele guarda no peito uma espécie de bomba relógio e qualquer pequeno detalhe é capaz de causar uma explosão sem tamanho. Ele até tentou ser daqueles que se importa menos do que deve, que vive por si e o que vier é lucro, que não sente a diferença entre um “eu te amo” e o silêncio. Mas ele é feito de poesia, e o silêncio é como a arma letal capaz de anular qualquer confiança de quem sente demais.

Mesmo com medo, ele nunca foi de desistir daquele sonho de menino. A felicidade era como o pote de ouro em dias de chuva com sol, ainda que valesse muito mais a pena observar a caminhada em direção ao fim. Ele sabia que não seria tão fácil encontrar o final feliz, mas insistia. Insistia, mesmo com o descompasso dentro do peito, porque sabia que a indiferença não lhe cabia. Insistia buscando em cada pingo de água um motivo para renovar sua alma, para deixar levar aquilo que não fazia parte do que sonhava em ser.

Mesmo crescido, ele ainda tinha medo do escuro. Suas inseguranças não reagiam bem com a ausência do que pode ser visto. Ainda que os outros sentidos fossem tão preciosos pra ele, o que era exposto tornava as reações mais reais e menos imaginárias. Ele cresceu com receio dos fantasmas do sentir. Se fosse noite, ele procurava se aninhar em algum canto de luz até amanhecer, até que todos os monstros que se escondiam dentro de si pudessem voltar a dormir.

Sempre acreditou em intuição e teimava em ser apenas aquilo que lhe fazia bem. Encher o peito de afeto era quase um mantra, que repetia todas as vezes que o mundo parecesse cinza demais. Mesmo depois de todos os desafetos da vida, ele sabia que cada cicatriz era mais uma prova de quanto ele era forte. Entre erros e acertos, bagunças e aconchegos, gargalhadas e lágrimas, ele sempre encontrava as peças certas para começar e terminar qualquer história.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Geovane Peixoto

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Eu decidi esperar você


Para ler ouvindo "Singular"

Eu decidi esperar por você desde a primeira vez. Mesmo sem fazer a menor ideia de que era você, eu esperei você mandar aquele “oi” como quem me permite dar mais um passo. E depois eu esperei você na fila do cinema, com um balde de pipoca e algumas borboletas acordadas, para assistir a um filme qualquer e poder, de perto, ver se nossas mãos se encaixavam. Eu decidi esperar você quando te disse adeus na porta de casa, de malas prontas e sem nenhuma certeza de futuro.

Sabe, menino, ir contra a maré é o forte dos teimosos e quando eu coloco meu coração em alto mar, se afogar é apenas um risco para um marujo. Foi aí que eu decidi esperar até o próximo beijo, até a próxima despedida, até o próximo reencontro. Decidi esperar nossa história ser escrita com o peito aberto, sabendo que cada noite com a tua ausência seria recompensada pelos sorrisos da tua presença.

Entre o sim e o não, eu te disse “sim”. Longe de todo o nosso mar, perto de tudo que a gente sonharia em chamar de nós a cada novo nascer do sol, eu decidi que seria o seu corpo o meu melhor refúgio e o seu abraço a melhor forma de pertencer a algum lugar sincero e aconchegante. Mesmo quando as tempestades insistissem em aparecer e tudo parecesse desmoronar, decidi esperar você se recompor. Eu sabia que a tua calma era questão de tempo e entreguei minhas mãos para que você soubesse sempre onde ancorar quando a maré enchesse.

Eu decidi compartilhar meus sonhos contigo cada vez que a gente dividiu o travesseiro e sua cama de solteiro. E mesmo que, algum dia, a gente desista disso tudo, eu sei que fomos o melhor que podíamos ser durante todo esse tempo em que nossos sorrisos estão juntos. A questão, menino, é que eu continuo te esperando, de janela aberta, coberto de saudade e com os sonhos brilhando nos olhos. E cada vez que eu decido esperar, é porque eu sei que a paciência é o exercício mais nobre para quem ama, e o amor faz sentido cada vez que eu olho para você perto de mim.

Texto de Patrick Moraes

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Amanheça


Para ler ouvindo "Vive"

Sobre términos e começos, nada é muito fácil. Às vezes, despedidas machucam e recomeçar é sinônimo de fracasso. Às vezes, dar um fim é simplesmente o ato mais corajoso e libertador que podemos ter, assim como dar início é também dar fôlego aos nossos sonhos. O mais engraçado é que nenhum sentimento ganha forma sozinho. Nenhuma decepção ou surpresa é fruto apenas da vida. 

O ano vai embora com muitas mensagens de “poderia ter sido melhor”. Eu sei, poderia ter melhorado de emprego ou feito tudo aquilo que a consciência grita quando a cabeça encosta no travesseiro. Poderia ter se dedicado mais nos estudos ou investido seu tempo em alguma coisa realmente proveitosa. Mas cá entre nós, os nossos fracassos não precisam de anos para serem culpados.

Feliz de quem acredita sempre naquilo que pode ser melhor e enxerga no ano que se despede aquilo que nós podemos ser sempre: melhores. Não dá para ser perfeito em tudo, mas lembro de ter ouvido dizer, neste ano, que a beleza mora mesmo nas imperfeições. E quem se importa se o amor da sua vida não deu as caras ainda? Talvez fosse o tempo de você descobrir uma das melhores pessoas para amar: você mesmo. 

No fim, parece que a balança tende para aquilo que não deu certo. É como se todos os sorrisos, as pequenas conquistas e os grandes abraços se escondessem para que a gente fosse capaz de olhar os nossos medos, erros e omissões mais fáceis. O pior é achar que esse monte de deslizes vai ficar para trás com os votos de ano novo e as luzes no céu. Talvez a gente se esqueça de que o primeiro de janeiro só acontece quando a gente entende que erros são corrigidos com atitudes e medos só morrem com coragem. 

A responsabilidade pela forma como terminaremos ou (re)começaremos cada etapa da vida é nossa. E acredite: o jeito como olhamos o nosso caminho é capaz de tornar diferente a experiência de viver. Por mais que os dias estejam cinza, permita-se colorir os pequenos cacos que sobraram. Nem tudo são flores, mas as tempestades não precisam ser constantes. O céu só é azul para quem sabe que as noites não são eternas.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Ricardo William

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cativa


Para ler ouvindo "Somewhere Only We Know"

Me espera, menino. Em cada noite em que olharmos as estrelas de janelas diferentes ou em cada raio de sol que nos acordar distantes um do outro. Me espera com a paciência de quem espera uma rosa crescer e, ainda assim, vê motivo para regá-la todos os dias. É que a paciência é um dos dons de quem sonha com jardins floridos.

Cultiva meu bem querer como a coisa mais preciosa que você poderia ter encontrado. Não apenas por ser meu, mas por ser sincero e feito pra ti. Desde pequeno, aprendi a ter esperança naquilo que só pode ser sentido com o coração. É como se a gente fosse capaz de cultivar carinho em lembranças e sorrisos em recordações. É como se a gente aprendesse a guardar o amor dentro de si para que ele se faça presente até mesmo nas ausências impostas pelo destino.

Não desiste de nós e nem me faz esquecer todos os segredos que confessamos debaixo da coberta ou de frente para o mar. Não importa onde você esteja, não desiste de voltar para ver meu sorriso florescer a cada vez que te ver chegar. Cuida dos espinhos e me deixa cuidar para que eles não te machuquem. Preciso confessar que provavelmente eu precisarei segurar tua mão quando sentir que o frio aqui dentro se tornou assustador. Só aperta forte e me coloca perto de ti. Nenhum refúgio será mais seguro do que o teu abraço.

Sabe, menino, acho que nossos destinos não se cruzaram por acaso. Assim como não é por acaso que eu me despeço sempre de você com o coração apertado e os olhos de criança esperançosa. Nunca te disse "adeus" porque eu sei que estamos destinados ao "até breve". Mesmo que eu não te veja, eu sou capaz de te sentir. Mesmo que eu não te toque, eu sou capaz de lembrar. E mesmo que seu perfume se perca no vento da distância, eu serei capaz de perceber o quanto existe de você em mim.

Talvez a gente sufoque o peito de tanto apertá-lo contra o travesseiro tentando enganar a ausência. Talvez a gente chore de saudade até cair no sono, até se dar conta que basta fechar os olhos e seremos capazes de sentir o carinho sútil que só amor é capaz de entender. Dizem por aí que chorar é o risco que se paga por ter se deixado cativar. Acho que teus olhos cativaram os meus como brisa: sorrateiro e suave. E quer saber? Tem sido doce compartilhar os segredos dos meus olhos com os teus.

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Não deu para esperar


Para ler ouvindo "Açúcar ou Adoçante?"

É, cara, não deu para te esperar. Não deu para esperar você decidir que a gente valia a pena e voltar. Enquanto você insistia em uma relação sem futuro por aí, eu resolvi ir em busca da minha felicidade. É que eu cansei de abrir mão do meu destino por acreditar que você viria fazer parte dele. Cansei dessa história de vai e vem e de todas as noites em que deitei ao lado das suas incertezas. 

Não deu para esperar sua indecisão virar escolha, nem a ausência de possibilidades te mostrar que eu estava aqui. Segunda opção não combina com felizes para sempre, e talvez seu erro foi acreditar que a minha espera fosse sua única certeza. A gente cansa das faltas e, uma hora, a vida acaba jogando em nossa cara o prazer de se sentir completo.

Não deu para ver mais o pôr-do-sol imaginando quando seu ombro estaria ali do lado para olharmos na mesma direção. Anoiteceu e você simplesmente não veio. Anoiteceu e só tinha aquele céu de estrelas brilhando para acompanhar os meus sonhos. Acho que foi a lua quem me fez acreditar que a luz sempre existirá depois da escuridão, mesmo que as noites de insônia tentem me negar isso.

Desculpa, cara, mas não deu para retribuir as últimas mensagens de carinho. É que as cicatrizes me ensinaram a não acreditar naquilo que fere, e o nosso caso já me fez escrever todas as despedidas justas sobre a gente. Não tem mais segunda chance, nem segunda intenção, muito menos segundas amargas depois de domingos vazios. Não tem mais sofá em frente à porta, cama arrumada e o café sempre quente a sua espera. Não tem mais nossa música no radinho da sala, nosso poema preferido no livro de cabeceira, nosso retrato escondido na última página do meu caderno de escritos. Não tem mais nós.

Não deu para esperar você consertar todos as linhas mal feitas do caminho que o tempo foi desenhando para nós dois. Simplesmente não deu para te esperar, e eu resolvi abrir mão do que nunca existiu. Acho que a gente se perdeu na estrada e acabou ficando tarde para voltar em busca da direção certa. Acabou o tempo, acabou o vento. Sua ausência foi capaz de tornar brisa aquilo que um dia foi vendaval.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Geovane Peixoto

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Dorme aqui hoje


Para ler ouvindo "Se Tudo Pode Acontecer"

Deita aqui do meu lado e não precisa dizer mais nada. Sem compromisso de ligar no dia seguinte ou deixar um bilhete de despedida no criado mudo. Só deixa eu ser teu porto nesses dias de maré alta. Me abraça forte e deixa que o perfume do teu corpo me faça acreditar que amanhã tudo vai ficar bem mesmo sem você.

Dorme aqui essa noite. A gente divide o café e as piadas bobas. Nem precisa falar sobre seu dia, muito menos sobre o seu passado. Mas se quiser, meu colo será seu melhor abrigo. Às vezes, desabafar alivia aquela angústia inesperada no fim do dia. Às vezes, combinar nossos silêncios é o suficiente para acalmar um peito inquieto. Só não levanta e bate a porta. A cama é grande demais e o seu abraço ainda é a melhor coberta nas noites frias.

Deixa eu fazer tuas vontades. É que teu riso afasta toda possibilidade de tristeza, e meu coração anda querendo se aninhar na felicidade. Prometo te deixar ir embora quando tudo parecer ficar sério demais, quando as coisas perderem a leveza, quando o casual ceder lugar para as imensas complicações que a gente insiste em provocar. Você sabe, a gente ainda teme começar de novo e acha melhor seguir em frente sem riscos de sofrer, mesmo que isso signifique arriscar o amor.

Espera. Não fica triste! Eu tenho preferido deixar tudo claro para que teu peito não desperte à toa. Meu coração odeia ser acordado em vão e, quando não se irrita, ele chora pelas perdas que a vida traz. Não sei se a gente aguentaria outra aventura em busca de um final feliz, mas minha intuição nunca foi boa quando se trata de amor. Melhor não esperar nada: nem do amanhã, nem do acaso.

Só fica um pouco mais. Mais um abraço, mais um cochilo, mais um sorriso daqueles que aperta os olhos. Eu sei que o nosso combinado era não pedir mais, mas é que, no teu peito, meu desassossego vira paz. Não se perde de mim e nem deixa eu me perder. Mesmo sem promessas, é o conforto da tua companhia que eu tenho desejado todas as noites. Não se apressa, nem se atrasa. Apenas fica.

Texto de Patrick Moraes
Foto de Mateus Palmeira

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Onde você guarda o preconceito?


Para ler ouvindo "Bossa"

Por onde anda teu preconceito, menina? Tem se escondido nos cachos negros que balançam nas esquinas de uma liberdade ou tem dormido nos afetos que andam gritando por aí? Me conta, menina, teu preconceito está por baixo das minissaias e dos pudores que carregam os olhos alheios ou vivem nos beijos de dois meninos em meio à praça central? Será que teu preconceito andou perdido em balanças e etiquetas luxuosas ou se refugiou nos sonhos daquele moleque da favela que só quer ter um nome e o direito de ser feliz?

Por onde andam tuas desculpas? Adormeceram no que te convém para despertarem com os tais valores convencionais que te formaram? Ou caminham juntas ao discurso de viver uma relação de amor e poréns? Será que a aceitação que você anda gritando por aí não tem andado negando os direitos de quem você diz amar? Será que a tua sabedoria não se perdeu em nome de uma fé que não atende nem as tuas próprias dúvidas?

Não sei bem, menina, mas as boas intenções que você diz esconder no peito não andam se mostrando em tuas falas ou teus gestos. Desculpa te contar, mas o que a gente guarda não afaga o peito de ninguém. As intenções não defendem quem sofre, muito menos confortam quem se machuca todos os dias. As tuas omissões, menina, não abraçam quem engole as dores a cada nascer do sol só pela vontade de ser feliz sendo quem é.

Eu sei que você também deve chorar todos os dias por alguma ferida que abriram em teu peito e disseram que a escolha era absolutamente sua. A vida tem se tornado um verdadeiro caos em busca de uma verdade que nunca existiu. Parece que o amor ao próximo tem se confundido com o ódio seletivo, com uma crença perversa, com uma moralidade que desconhece as diferenças humanas. Às vezes, olhar nos olhos do preconceito dói, assusta, faz a gente sair correndo e se esconder até que tudo passe. Mas não passa. O ser humano não aprendeu a fazer da vida um lugar mais terno e sorridente. O ser humano tem matado o respeito com a desculpa do pecado.

Desculpa te dizer isso, menina, mas é que mora em tuas mãos o remédio contra esse mal que machuca todos os dias alguém a tua volta. Não faz com que a dor do outro seja apenas um exagero de quem se diz vítima do preconceito. Lembra que, todas as noites, alguma ferida guardada em você vai latejar aquilo que mais ninguém consegue perceber. Se apronta e seja corajosa. Não tenha medo de parecer desafiar as normalidades que andam te dizendo ser de boa-fé. No fundo, quem luta pelo direito de cada um ser quem é luta pelo amor. E qual bem melhor do que aquele vindo de quem ama?

Texto de Patrick Moraes
Foto de Geovane Peixoto