sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Confessional


We were born and bred in a summer haze bound by the suprise.
(Adele)

Sexta-feira, nublada, chuvosa, do jeito que há muitos dias eu não sentia. Ainda estava naquela cidade, ainda vivia em pleno verão, mas talvez aquele fosse um pequeno indício que nada permanece como está pra sempre. Já não sei mais o que me basta, acho que sumiram com a peça do quebra cabeça que continua a sequência de amores inacabados e alucinantes. Rasgaram! A folha rosa citilante caiu na poça de lama logo ali em frente e perdi a vontade de me melar para salvá-la. Experimentei novidades da mesma essência sem consistência e vazias.

Cheguei até a passar na porta do passado, e, por pura fragilidade, olhei pelo portão em busca de uma luz acessa. E se tivesse luz? Já não sei se prefiro ficar no escuro ou me fazer cego em meio a holofotes descaradamente sofríveis. Mas passado gostoso que se preze tem que machucar pra ser lembrança. Cresci aqui, mas parece que deram corda para o boneco agora. Talvez eu queira um eterno verão, sem amarras, com uma dose de segredos, porém com um queimor angustiante no final da noite.

Acabei aceitando a caixa de chocolate e deixando o sentimento de cada bombom de lado. Não me tornei amargo, só não quero ser doce a ponto de enjoar na última mordida. Antes do final a gente pode escolher parar e dar continuidade em outra frequência. E melhor que sejamos sinceros, que fiquemos perdidos em nossas confusões e que, mais cedo que ontem, você descubra o quanto eu posso tropeçar em certezas. Não, eu simplesmente crio barreiras quando a visita não é bem vinda. Nos demais casos? As portas vivem destrancadas, é só bater com jeito e limpar os pés no tapete vermelho antes de entrar.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 26 de dezembro de 2010

Balanço 16/51

Mas só vou sambar com você pra divertir.
(Roberta Sá)

Roberta Sá continua sendo a voz que mais me encanta, continuo morando no mesmo 1004 e meu coração perdeu o rumo depois de tantas tentativas em ser sincrônico. As 51 ideias não passaram de meros planos que esperarão no próximo ano. Por sinal, detesto paridade anual e sei que isso é apenas mais uma percepção sem tanto fundamento, mas com tamanha força que atrai energias. Cresci e sei que não foram simples centímetros, a régua fez questão de mostrar que distância e afetividade nem sempre são compatíveis. Percebi que posso assumir as rédeas da situação e deixar muita gente babando pelo galope do meu cavalo. Fui nas extremidades e cheguei a conclusão que o veneno pode matar tanto pelo excesso, quanto pela falta. Infelizmente não provei todos os gostos filmícos, não li todas as frases clichês descompaçadas que conseguem me entender, muito menos aproveitei as oportunidades de conhecer o você eterno perdido por aí. Passei duas horas com a amiga que foi a metade de minha vida e percebi que o tempo é realmente amargo, capaz de esvaziar cumplicidades, mesmo que nunca consiga apagá-las. Não comecei a escrever um livro, mas tive ideias pra falar de tantos vocês que troco olhares todos os dias, em cada esquina ou passagem de carro em frente aos prédios vizinhos. As coisas quentes se limitaram ao sol de Jequié e alguns dias na capital baiana. Boas lembranças, pequenos firmamentos, mas saudosas experiências. Novos sabores, novos perfumes, velhas sensações, um ciclo de déjà vu. Tive a certeza de que quando alguém é passado não devemos mudar a condição temporal dessa pessoa no intuito de um futuro perfeito. Recaídas são sempre novas caídas e a gente só sente quando o joelho bate na pedra que a gente mesmo jogou. Reconheci que os rostos mais bonitos trazem as essencias mais insuportáveis, mas que continuo sendo teimoso na busca da pedra de topázio em meio a um deserto de jóias falsas. Desisti no processo de canalização de forças para atividades físicas. Em poucas palavras, preguiça é realmente um karma que carrego abraçada com quatro braços. Não banlacei as 25 prometidas vezes essa gangorra, mas com certeza oscilei bem mais que isso durante meu apasseio anual pelo parque de diversões. Resolvi arriscar um balanço, uma roda gigante e até mesmo o carrinho de bate-bate. Acredite, a aventura das batidas aceleram demais o coração e eu ainda prefiro o arrepio na nuca provocado pelo vento quando a gangorra sobe. Cumprir metas é sempre um problema e minha lista ficou quase intacta, sem riscos nas propostas que exigiam mais coragem, menos roupa e, até mesmo, mais romantismo. Acho que resolvi tirar toda a tinta vermelha da gangorra e usei o restinho que sobrou na lata no nariz. Não, ser palhaço não é ruim, desde que você saiba rir das próprias piadas que a vida prega. Mas depois tem que saber retribuir e na maior medida possível!

2011? Talvez eu faça mais uma lista cheia de libido, viagens e conquistas. A única certeza é que o item 1 está fora da escala.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sem estrela


I missed the opportunity
To get you babe to stay with me.

(Jamie Cullum)

Eu resolvi passar na porta da sua casa hoje mais cedo. Deixei dentro de um envelope branco todos os pedaços de lembranças e do meu coração que um dia pensei em fazer um vitral. Desisti da ideia antes de perceber as imperfeições que os cacos formariam associadamente. Eu só queria subir mais dois degraus e ouvir quantas risadas você estaria dividindo com quem te roubou de mim. Sinceramente eu nunca vou me perdoar por ter deixado você sumir da porta de minha casa naquela manhã. Você deixou o pior presente debaixo da minha árvore de natal e ainda conseguiu esconder a estrela brilhante em uma caixa preta, escura e apertada. Ela sofre, ela dá sinais de vida bem raramente, mas ela nunca mais conseguiu chegar ao topo daquele pé verde que eu tentei arrumar esse ano novamente.

Antes de deixar a carta, que por sinal manchou de lágrimas e pingos de tinta vermelha, eu tinha feito um desejo. Não, eu não seria tão cruel em desejar você de volta. Eu só queria te ver inesperadamente cruzando a praça e me dizendo que não conseguia tirar meu perfume de você. Eu só queria ter a certeza de que não passei, que a estrela você escondeu de propósito para mostrar que o melhor nem sempre está no saquinho vermelho do gordo de gorro. Não me interessa quantas vezes você dividiu a cama com outros corpos, eu queria ouvir teus gemidos de prazer que nunca sairam da minha cabeça. Sem bis, sem sonhos de valsas, sem passeios nas manhãs de domingo. Mas eu queria apenas te dizer que passei ali onde a gente chorou por causa das minhas inseguranças, por medo das tuas incertezas. E mesmo que os goles de champagne sejam sem brindar, eu vou olhar pra espuma e sorrir, preferindo aquela cachaça com chocolate.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 12 de dezembro de 2010

Outra vez

dos amores que eu tive
o mais complicado, o mais simples pra mim
o maior dos meus erros, a mais estranha história
(Maria Bethânia)

Sentei naquela mesa de bar com todos os copos coloridos em frente e se quer pensei em não rir aquela noite. Morango, por favor! Com som, a noite parecia apenas começar e logo os papos de futuro, o desejo de uma liberdade sem cobrança e de uma provocação a cada lado que eu pudesse olhar. Realmente, queria companhias interessantes, risos novos e uma felicidade em dividir um simples copo de vodka com limão e áçucar.

Aí que chegou o divisor de águas, o que eu menos queria pensar, muito menos ouvir. Soava mais forte, talvez fosse o timbre daquela cantora de bar, daquele violão antigo. Talvez minha saudade nem me fizesse lembrar de tudo outra vez, ali, no meio das bebidas vermelhas, verdes e amarelas. Mas deu vontade de te ver e sofrer mais uns minutos, uns dias. Deu vontade de saber que você não nasceu pra mim, mas que eu sou uma criança bem birrenta e quero a peteca rasgada que o menino da rua de baixo brinca. E você poderia caber naquela mesa mais uma vez, ao lado daquelas pessoas que nunca conseguiram te enxergar sem as brincadeiras e com tua verdadeira intenção comigo. E antes que eu começasse a pensar em todas as combinações que deveriam dar certo, em nossas transas, em nossos risos apaixonamente idiotas, em nossas implicâncias, nas mordidas de canto de boca com o olhar sonso ou com o puro medo de perder de vista o que até ontem era só nosso. E antes dessa parafernália de lembranças, o repertório mudou. Saiu de Bethânia e foi pra Rita, chegou no samba, chegou na encarnação da nova etapa de vida que talvez eu nem fizesse questão de viver, mas vivo. Aí esqueci aquela queixa, aqueles lugares que passei e lembrei dos próximos passos molhados, na areia. Será que cada pequeno poema de saudade me retomaria você? Será que isso é dizer com peito cheio que amei?

Vai ver as respostas estão no morango.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

No fim, sussurre


Somos feitos de intencionalidade, de desejos, de vontade de provar que o ângulo certo é formado no encontro dos nossos catetos. Somos um amontoado de mentiras organizadas minunciosamente para forjar uma verdade tão real que finca. Finja, seja apenas mais um artista de praça jogando confetes e malabares e nunca esqueça de sorrir. Ou simplesmente pegue o papel de suposto herói e faça do seu balaio de verdades uma mentira reformulada, criada, conveniente.

Destrua pontes, desfaça ligações, berre! Mas grite com força. Só assim você conseguirá fazer com que os sussurros sinceros sejam transformados em silêncio. O calar envergonhado, o olhar de canto de rosto por sentir apenas desprezo com tanta cena, com tanto palco. E aqui, há quem prefira ficar na coxia, rindo, aprendendo a ser artista com o pouco que lhe sobra nos bastidores, com o muito que lhe é dado nas fichas técnicas e nos roteiros escritos com intuição de quem quer um dia brilhar.

Talvez os fatos espetacularizados aqui não precisem mais tarde de gritos, de inexperiência, de puro sangue melodramático. Basta apenas um sorriso atrevido de quem sempre esteve no atrás-cortina, esperando a hora de pisar firme e dizer que chegou a minha vez!

Na Califórnia é diferente, irmão
É muito mais do que um sonho
.
(Lulu Santos)

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Paralelas


É tão melhor viver em paz,
Ninguém me faz sentir assim.
(Vanessa da Mata)

Levantei da cama só para escrever o quanto eu senti falta daqueles depoimentos que sempre lia em minha página e guardava só pra mim. Letras roxas, em negrito, com uma dose de paixão tão grande que nunca senti de novo igual. É bom ser egoísta, é bom preservar nossos desejos e saber que quem importa realmente dividia. Eu sei que não existe mais nós, não existe mais o boneco do olho azul, muito menos as nossas intimidades. Tudo ficou diluído nos quase dois anos, nos destinos que seguiram em paralelas talvez nem tão simétricas. E foram pontos humanos para descontruir uma frase que poderia ser longa, mas não adiantava tanta condicionante, tanta causalidade. E antes que você sorria e pense o quanto eu fui idiota e, mais uma vez, estou sendo, eu lembro da ponte. É, a tua recém intimidade misturada com o mesmo riso pelos meus medos. E não seria agora outro medo? O medo de me fazer exposto demais, de te fazer um esperto mago da verdade. O aparente bem estar, a simpática aproximação, o não-saber-prevendo, tudo que acontece não me faz pensar no futuro como algo inovador. Prolongar? Prefiro acreditar que apenas despertaríamos uma profusão de sentimentos apagados, adormecidos. Mas aí eu deito de novo e meu divisor de sonhos apenas me questiona se vale a pena deixar que roubem todas as lembranças que um dia construimos nas paredes brancas do meu apartamento. E eu apenas respondo ao menino dos olhos azuis: talvez não.

No fim, são coisas boas.
No fundo, saudade.

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Arlequim


Vai te levar leve a vagar
Prum lar de fina-flor
(Los Hermanos)

Chega em determinado lugar da ponte que você precisa decidir o próximo passo ou a simples decisão de se jogar no abismo de incertezas. Voltar não vale mais a pena, já que praticamente metade e meia do caminho foi percorrido. Um pulo para o final? Talvez não, talvez a madeira não sustente com tanta firmeza e seria arriscado se ferir nas lascas esmiuçadas. Direita ou esquerda? Será que lá embaixo as cores conseguem se harmonizar tão bem quanto o leve balançar da ponte? Céu azul, azul do rio. Mas quem disse que depois do pulo ele ia se molhar?

Equilíbrio: estático, tático, físico, "sentimentaLógico". Na corda bamba do equilibrista, esperto é quem consegue dar cambalhota e segurar o guarda-chuva com apenas uma mão. Esperto é quem faz graça para a platéia e ainda consegue entregar uma rosa imaginária a donzela mais bonita que está sentada na primeira fila. O palhaço, o mestre dos sorrisos que um dia não soube o que fazer com a maquiagem avermelhada que toda noite usava para pintar seus lábios. Talvez mudaria de nome, usaria uma roupa mais alinhada, uma postura mais robusta, mas tão colorido quanto estava antes. Não, ele não seria o bobo-da-corte, nem o bêbado equilibrista, muito menos o mestre das gargalhadas embaixo da grande lona. Bastava a fantasia de ser o arlequim, até o dia que perder seu coração para outra pessoa e entregar o título que tanto desejou.

Texto de Patrick Moraes