quinta-feira, 11 de março de 2010

O tipo errado

"Os poucos que viram você aqui me disseram que mal você não faz e se eu numa esquina qualquer te vir será que você vai fugir?" (Los Hermanos)


Depois de descer do carro olhei pro céu e prometi que seria diferente a partir de hoje. Talvez não fosse, mas tenho a pscicótica idéia de sempre me prometer novos começos. Sorri sozinho e quando menos esperei sorri mais uma vez em ver que você estava ali. Eu te disse ontem que os desejos podem manipular os caminhos e nosso encontro poderia acontecer quando menos esperassemos. Não imaginei que seria aquela hora da manhã, cedo demais pra acabar minha promessa. Mas me perdi completamente nos pensamentos quando senti sua mão em meus braços. Por que você insiste em me puxar? Proximidade demais é perigoso pra mim, que ainda tento te fazer despercebido em minha vida. Mas você sorri, você é descaradamente convincente com seu charme bobo, com suas histórias, com seu perfume forte. Você é exatamente o que me deixa tonto e faz eu transformar momentaneamente as minhas convicções em simples crises de achismo.

O tipo errado que eu insisto em querer. Parece que repetir as frases marcantes depois que acaba a comédia romântica no cinema ou mesmo os chocolates em cada data especial não têm a força das simples expressões em teu rosto. Parece que a proposta que ouvi no pé da escada deixou arrepedimento e levou a oportunidade que parecia certa. Mas ainda bem que as minhas noções de certeza se confudem em sua frente. E carrego fortemente meu jeito de guardar, de ocultar o que você tanto quer. Talvez sua força se esgote nesse meu tipo exato de charme, de mostrar que a gente reveza o controle e eu também posso apertar o pause. Mas depois de tanto usar a tecla de barrinhas, é inevitável a desconfiança que você acione o stop com tanta força que a música pare e eu seja forçado a mudar de CD.

Mas mesmo assim o tipo errado é a armadinha no meio do nada. Certo quando quer, exato quando pode e convicente demais pra quem não sabe lidar com isso ainda.

Texto de Patrick Moraes

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um ponto que brilha

"All we have to do now is take these lies and make them true somehow" (Danni Carlos)

Certa vez olhei pro céu e vi uma estrela. Brilhava tanto que meus olhos ardiam, mas era de desejo, de admiração, de apreço pra tê-la. Sentado na porta de casa eu sonhava em crescer tanto a ponto de poder alcançá-la. Ao menos toca-la uma vez, era isso! A bola não tinha graça, as cores até me envolviam durante o dia. Mas se quer esqueci um segundo daquele ponto em meio ao preto.

Foi de repente que me apresentaram o sol. É, aquele todo poderoso, que é capaz de incendiar o ambiente e até corar os mais azuis. Era tanto brilho que eu pensei ser ele meu novo sonho. Mero engano, ainda era apaixonado pela estrela. Pequena, delicada, mas brihante o suficiente. Era terno tê-la, era meu pequeno conto de aprendiz.

E veio a lua, vieram as histórias de Marte, a sedução de Vênus, a distância de Plutão e todos aqueles meteoros que viram história em quadrinho. Conheci, me dispus a entendê-los, a saber como cada canto de um Universo pode ser. Pequei por querer mostrar a superioridade da estrela aos demais, pequei por achar minha estrela era maior que a de todos e esquecer por momentos da individualidade cósmica. E mesmo pecando, eu fui capaz de reter a estrela em mim, internamente, e relutante a transformei em minha verdade.

No conto de aprendiz não existe verdade certa ou errada, só a existe e ponto. Talvez todo resto seja mais interessante que o puro julgamento dos habitantes Terrestre. Mas certamente o cosmo é enorme demais para eu vagar, caminhar, conhecer e sentir. Porque sentir é manifestação da felicidade, e pra eu ser feliz só preciso da minha estrela segura, alta e incandecente.

Texto de Patrick Moraes

sábado, 23 de janeiro de 2010

A infinita janela de casa


"O mais importante do bordado é o avesso. O mais importante em mim é o que eu não conheço" (Maria Bethânia)

Foi de lá que eu cheguei naquela tarde de domingo. Dava pra ver a goiabeira ainda, quase sem galhas, mas em pé! Ainda via o menino que subia nas telhas de casa para chupar goiaba, mesmo sabendo que ia ouvir os berros de reclamação depois. Era a coragem de um pequeno herói, o desejo de fazer diferente do comum, a sensação do perigo. A goiaba nem era tão doce quanto as que tinha na geladeira de casa, mas o ácido da aventura o estimulava a sair da janela.

Abro a janela! As recordações são inevitáveis, aquelas mesmas de um tempo que eu cresci sem cair da bicicleta porque preferia olhar. Talvez meu trauma seja menor quando leio Tati Bernardi dizer que existem aqueles que sabem falar de si tão bem por conviver intimamente com as histórias que um dia ensaiou nos desenhos. Não foi bem assim que ela disse, mas eu digo. E me apaixono a cada texto por ela!

De volta a janela, acreditei ser lá meu refúgio, só esqueci de me avisar que não devia ser moradia. É bom subir na goiabeira vez em quando, cair da escada, ralar o joelho e sair do intimismo dos contos de herói que só ficam no papel. O parapeito não pode esquentar com os braços, só vale sentir o friozinho raramente. Mas mesmo ouvindo Bethânia cantar a janela do nunca mais, resolvi procurar debaixo do meu travesseiro a coragem do menino das telhas. Vai ver ele me ensina o caminho da porta ou pelo menos onde se esconde os mais ácidos desejos.

Texto de Patrick Moraes

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

De pote vazio

"Eu faço e desfaço, contrafeito. O meu defeito é amar demais" (Maria Bethânia)


Conhecer, conversar, ficar, conhecer mais, ficar sério, namorar, amar. Esse rito me cansa de tal forma que eu preferia ser adepto ao sem compromisso e com prazer. Não que eu gosto sem prazer, de forma nenhuma, mas banalidade é vazio demais pra meu pote de ouro. Embora não faça sentido ter um pote cheio se no final ele vai derramar, quebrar e minha gangorra vai balançar como sempre. Sortuda é minha prima que nunca pensou nisso. Se não tem com quem contar sempre do lado, também não precisar ficar semanas lembrando sofrivelmente alguns relances de prazer. É mais prático, aproveita a parte boa do todo e não é nada taurino. Deve ser esse último o problema que me persegue.

E o pior é quando bate aquela crise, quando os meus berros poderiam dizer o quanto eu queria que você se fudesse. Mas não, você sempre foi demais pra eu fazer isso! E mesmo arriscando dizer em forte e bom som que na minha janela você só passa agora, não sei como seria estar perto mais uma vez. Se estar do outro lado da parede que separa o eu do você já fez meu coração descompasar, imagina frente a frente? Queria saber por que você não é mais uma daquelas pessoas canalhas que eu perco a tarde em apontar as cachorrices que me fizeram sofrer. Mas ao invés disso, você foi quem me pediu em namoro com um papel de chocolate e terminou na minha porta olhando triste em meus olhos. Se era tristeza, eu que estou dizendo, vai ver era remorso por algum ato falho.

Eu jurei que faria diferente depois da primeira vez. Passou! Jurei da segunda até a quarta. E mesmo assim, eu continuo a insistir no amor. E adoro ler Tati Bernardi dizer que o amor não existe, já que não há pra sempre. E se não há pra sempre, acho melhor eu acostumar a aproveitar o começo do salto, mergulhar rapidinho na piscina de bolinhas e tratar de sair correndo.

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Vamos mudar?


"I Know that I must pass this test so just pull the trigger" (Rihanna)

E quando levantei ainda vi aquele mundo em tons pastéis se passando. A árvore da frente ainda esverdeava, a cachorrinha vem de manhã e deita aos meus pés e o mundo continua parado. O meu mundo, só pra ser mais claro! Parece que as tão sonhadas férias perderam o valor na cidade das praças. Outrora eu me convencia com tão pouco, hoje eu quero mais. Nesse mais nem precisa existir você, só precisar conter ingredientes para fermentar meu bom humor. Pode ser uma noite de excessos, que comece na frente do espelho de casa e termine com os sapatos na mão voltando alguma avenida desconhecida. Se o preço for uma ressaca - até moral, que me deixa o domingo inteiro sem saco de olhar pra ninguém - eu estou aceitando.

Parece que o ano começou com cara de tédio. E mesmo cumprindo um dos 51 itens que escrevi como metas audaciosas - só pra não dizer outra coisa -, eu preciso de mais. Vamos dobrar a coragem, aumentar as oportunindades e multiplicar os copos. Quero me aventurar e escrever os prometidos 25 textos com cara de novidade. O pior é imaginar que todos eles envolvam algum sentimento que cansei de tentar ou mesmo o tapa de luva que tanto recebi.

Nem sempre a árvore da porta de sua casa vai florescer no outro dia. A cachorrinha pode acordar tão disposta e esquecer que precisa de seus pés por mais uns 5 minutos. Mas a grande virada de mesa só depende de quem está disposto a encarar mais um jogo com as cartas que têm. Afinal, o blefe é a arma mais poderosa de um bom jogador!

Texto de Patrick Moraes

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Vodka com bem coca


"Turn it up heat it up I need to be entertained" (Adam Lambert)

Sabe aquele tempo em que você saía na rua a qualquer hora, tinha sempre uma companhia e desejava todo final de semana aproveitar cada segundo antes que chegasse segunda de manhã? Antecipava o feriado, esquecia sua cidade, pensava mesmo que se amarrar não era para os espertos que quebraram a cara um dia como você.

Pois é, deu saudade daquele tempo. Das madrugadas do clube do bolinha, das histórias que só as paredes escondem, dos medos que compartilhamos e das experiências que um dia prometemos contar para os nossos filhos. Parece que vivi em um mundo diferente que me cabia bem, dentro de limitações, mas com minha pessoalidade respeitada. Os amigos eram mais confidentes, mesmo que a confiança não fosse eterna, mas dividia momentos importantes naquele momento. Passei a me isolar do mundo e, pra ser bem sincero, se não é pra estar entre os que me sinto bem, dispenso a presença forçada. Gosto de ser espontâneo e não tenho medo de ser eu. Tenho minhas crises, meus desesperos, mas parece que ocorre certo equívoco de definições. Nunca me abstive em função de ninguém, nunca precisei esconder o que realmente me faz feliz. Só não tolero mais tanta coisa mesquinha, tanto burburinho medíocre, tanto fingimento. Pra ser feliz não é preciso pensar em tantos. Pode ser egoísta, mas que pensemos primeiro em nossos umbigos. Como dizia minha avó, quando o umbigo dói, quem está do seu lado nem quer saber de nada. Só sei que cansei dessa vida que mudou. Água com açúcar perde o efeito quando a mesa de bar se acende. As histórias que ficaram para trás me parecem bem mais interessantes que essa simplicidade de momentos. Não quero aventuras eternas, nem as loucuras impensadas que cometi, só quero fugir do habitual. Saber que hoje a crise consome minha noite, mas que amanhã nem eu mesmo respondo pelo destino. Enquanto isso, um copo de vodka com bem coca.

Texto de Patrick Moraes

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sol de primavera


"Come away with me and I'll never stop loving you"
(Norah Jones)


E no final daquela tarde o vidro do carro parecia refletir um desejo angustiado. Olhou o sol que insistia em se pôr e com ele o final de semana ia embora. Ou o pesadelo terminaria ou de repente mais uma tempestade estaria por vir. Era melhor acreditar na certeza de uma manhã clara e uma rotina tão agradável como antes. Pensou na escada, nas tardes do primeiro mês, no sorvete de domingo, nas surpresas da sexta, nas ligações da semana. Sentiu um arrepio na nuca, parecia criança sem brinquedo, adulto sem razão. Explicação era o que menos queria, só sabia que não podia perder todos os grãos que havia plantado, queria ver crescer e bem de perto. O cheiro de pele, o desejo daquela noite, os corpos, os beijos, tudo parecia ter sido escrito nas páginas de José de Alencar em mais um romance. Os olhos de cólera de Capitu talvez tenham encarnado em outra figura, já não sabia até que ponto a inocência dava lugar às más intenções. E maldade nesse caso era o ponto alto de uma sedução. Queria mesmo mostrar que podia, queria ver prazer nos olhos, ver escorrer sobre os dedos a vontade de mais.

Chegou ao décimo e viu que mais um capítulo estava escrito. Com borrões e à tinta preta. Com adornos alternados de espaços vazios. Só lhe restava a lembrança, o coração que apertava parecendo sufocar. Sabia o que era aquilo tudo, mas preferia dizer que era coisa só dele. Aprendeu a ser forte, a não ceder o coração tão fácil, mas perdeu tudo isso quando o segundo mês chegou. Quem disse que ter medo do amor é coisa dos bobos, não sabe de verdade o que é amar. Agora a janela do quarto mostrava um outro pôr do mesmo sol. Com a destreza que tinha, aprendeu um pouco de Narciso, juntou forças e olhou certeiramente para o ego. Mesmo assim, não queria ser só ele, preferia ver as sementes se tornarem árvores, para que a maçã fosse o fruto da tentação, dividida em dois únicos sentidos.

Texto de Patrick Moraes