sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Tortos olhares


Então você pode me encarar, eu não me importo
Você é aquele que não vai a lugar algum.
(Jessie J)


Foi torto aqueles olhos, todos os olhares mal direcionados ou simplesmente perdidos no meio da multidão que nos rodeava. Foi torto todo o jeito como não dedicamos se quer uma palavra ao outro naquele instante em que apenas os ruídos de uma batida contagiava. Foi torto o jeito como eu impensavelmente quis te ter depois disso tudo pelo simples fato de te ver como um desafio.

Já não sei até que ponto se deve levar a inclinação desnaturada que alimentei pelo simples desejo em ter. E, se bem sei, entre os melhores e piores sintomas de um taurino no meio de um mar de maus olhados é a admiração terrível pelo ter. Não te quero tanto quanto me desafiei, você é simplesmente o que não tive mais cedo e preciso brincar um pouquinho agora que te levaram pra casa. Já não sei até onde você perdeu a graça em brincar ou onde eu simplesmente desisti de ultrapassar qualquer limite para ganhar esse joguinho idiota que eu criei peça a peça.

E se tudo realmente perdeu a graça, o último riso fica aqui ou quem sabe mais a frente, quando nos olharmos em meio a uma multidão de maus olhados e nos enxergamos mais uma vez como dois apáticos bonecos de plástico que foram reduzidos a puro desejo no olhar.

Texto de Patrick Moraes

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sem meus

Ele cantou tão alto, cantou tão claramente
Que fiquei com medo de todos os vizinhos ouvirem
(Florence + The Machine)

Nenhum são meus. Mas sinto tanto em perdê-los, parece uma parte de mim que se vai, acho que um centímetro do ego que inflei com o maior cuidado. São os elogios, os desejos contidos em cada conversa ou simplesmente uma mensagem de texto, são os suspiros secretos e doloridos que, involuntariamente, acabo alimentando. Por mais que pareça pura maldade, é simplesmente um egoismo, uma necessidade de ter tantos que possam preencher o vazio que ocupa todo o espaço na maior parte do tempo. Não, aqui não é oco, muito menos incapaz de ser preenchido. Mas tem resquícios de um passado manchado a sangue e suor, e tem uma porção de vácuo por vezes indeterminada, que simplesmente deixa correr solto, rápido, fulgás.

No mais, eu sei que nunca foram meus. Podem nem ser, ou se forem um dia estarão fadados ao infortúnio de um coração audacioso, mimado e tão treinado que só é capaz de perder a batalha quando o adversário vem armado de besteiras e sorrisos. Mas não basta isso, a guerra não é simples e prefiro acreditar que cultivo um jardim de flores de plástico, com adubo de palavras que servem de ilusões e um nascer de árvores que já não dão frutos, apenas ficam verde na primavera que se aproxima e somem depois. Prefiro simplesmente não contar os pedacinhos de amores que resolvi ir somando na intenção de colecionar um coração gigante, adorável e capaz de fazer tantos olhares perdidos e egos inflamados suspirarem de inveja. Não uma inveja do bem, mas uma inveja simplesmente na sua definição única, do querer assustador e imediato. Mas os meus não são meus, e a inveja só se encontra na posse do outro, nesse caso, é melhor esperar um pouco mais e desejar flores na árvore em um próximo verão.

Texto de Patrick Moraes

sábado, 16 de julho de 2011

Perdas


Lembro de ter sonhado essa noite com um encontro, desses casuais e inesperados. Era um mago, daqueles velhos que simplesmente mistura simpatia e apreensão. As palavras trocadas foram tão sutis que sou incapaz de remontá-las aqui, seria como tentar colar o delicado abajur que iluminava meu quarto durante a infância. No final, eu lembro de ter lhe perguntado o por quê de perdermos elementos tão essenciais e mágicos em um simples piscar de olhos.

Remontando ainda minha infância, doeu no peito aquele momento inesperado, que só foi capaz de me tirar da boca um "e lá se foi o homem que soube ser homem". E lá se foi o carinho distante, a preocupação discreta, o exemplo mais firme do que é ser um pai de verdade. A sensação de perda é inevitável, é como o pedaço do bolo de aniversário que você achou incrível e simplesmente te levaram. Era como o brinquedo velho que você poderia ter aproveitado mais, brincado mais, aprendido mais, sentido mais afeto, mas que nunca deixou de ser especial nem menos valioso que tantos outros novos. Mesmo sendo a maior certeza da vida, as perdas não dizem quando vão chegar e o fim potencializa surpresas nem sempre agradáveis.

Aí remontei o presente e percebi o quanto já me perderam, quantos fins simbólicos eu mesmo criei. Lembro de ler dia desses que grande parte das pessoas acabam escorrendo, e mesmo que promessas sejam ditas com tanta paixão, elas podem ser diluídas e quebradas sem nos darmos conta. Os amores eternos: até quando acreditar que você vai encontrar uma arara? E se não for uma arara, que seja um tucano, um cachorro ou um simples gato vira-lata. Lembro de perder tanto carinho pela sensação de asfixia, pelo medo de sentir-me amado de forma avassalaradora. Talvez a gente goste mesmo é da sensação de sofrimento e, inacreditivalmente, se olhe na frente do espelho em uma manhã de sábado não querendo acreditar que sempre foi um sadomasoquista sentimental. Certezas que surpreendem já não cabem mais aqui, é necessário não ter certeza de nada, ter frio na barriga e amar incondicionalmente o desafio da conquista.

E esse relativismo que toma conta das certezas também foi a única resposta que consegui daquele mago de dourado. Perder é simplesmente um estágio relativo que todo mundo mais cedo ou mais tarde passa. Involutárias, escolhidas, sem amor, com uma dose exagerada de nostalgia, perdas são encerramentos de ciclos. No fundo, se o ciclo for montado afetuasamente, ele permance aqui dentro, escorregando aos pouquinhos, mas sempre guardando o perfume de uma essência chamada saudade.

cause my heart recalls that it all seems the same.
corinne bailey rae

Texto de Patrick Moraes

terça-feira, 14 de junho de 2011

Chance

Is it gonna take a long time to love?
adaptado de P!nk

Aquela desculpa de se encontrar em meio ao desencontro de corações e almas já não convence um íntimo que insiste em uma crise existencialista do amor ideal. No fundo, já não sei se a bola da vez é errada ou se, simplesmente, tenho medo de amar. Já não consigo pisar em falso e de repente dar com a cara no chão, mesmo tendo as melhores certezas depois daquela noite juntos. Já não posso colocar a culpa em um passado que nem existe mais, foi diluído em tantos pedaços que é capaz de ser confundido com átomos de amor suprimido. Mas mesmo assim, uso das diferenças para criar defeitos, pra encontrar poréns, pra ser um exemplo de aventureiro que resolveu vestir a armadura e sair em uma batalha contra o inimigo que não existe.

Talvez seja melhor juntos, tentar encarar teus defeitos e de uma vez por todas aprender que vale mais ser amado que amar. Preciso esquecer a ideia de ter prazer com sofrimento, de querer a dúvida e cultivar amores que não me dão certezas. Se for certo demais, não me serve. Se for fácil demais, já me enjoa! Tudo soa clichê mesmo sendo o contrário daquelas comédias românticas de sessão da tarde. O pior é que você não foi quem eu briguei durante todo o roteiro e no final acabamos trocando amores dentro de um bar tailandês em um encontro meramente pelo acaso. Você é a perfeição de carinhos, sentimentos e uma dose de efusividade amorosa que me assusta. Tua entrega é minha excitação e teu beijo foi o suficiente pra me fazer pensar no amanhã como uma boa possibilidade. Preciso desarmar aquele guerreiro alucinado por lembranças tão bem vividas que se tornaram frustações eternas. Preciso me dispor a viver turbilhões de sentimentos presos a um só ser, que seja capaz de me trazer suspiros. Me tragam cargas, me tragam életrons enfurecidos pela falta do teu toque, que eu retribuo com certezas as dúvidas que eu alimento.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 27 de maio de 2011

De volta

I forgive you once again.
Adele

Pronto, aqui estou no retorno de uma estrada que talvez tenha uma saída bem distante, um cruzamento sem placas de orientação e um engarrafamento de sensações. Eu preciso estar de volta e precisava mais ainda terminar uma viagem que abandonei por conta de um atalho mal tomado. Falando em atalho, a via principal congestionou depois de tanta atenção, de uma velocidade acelerada de saudade com desejo, de um simples tocar de corpos naquela noite fria. Aconchego, calor, teus olhos pequenos, suas mãos grandes e um aperto desesperado no peito. Eu era uma bomba relógio pronta pra explodir com a próxima frase que saísse de sua boca. Por sorte, você falou pouco! Queria tantas outras coisas que até as minhas palavras se perderam na estrada principal, deixei do lado de fora e fechei a porta do carro.

Desesperador a aflição de não saber onde exatamente eu ia conseguir fazer o retorno e seguir adiante. Desesperador saber que uma hora você decidiria puxar o freio de mão discretamente e eu perderia o domínio do volante que tanto ensaiei durante meses. Mas eu escolhi essa rota, mesmo sabendo que no primeiro desvio eu poderia mais uma vez fugir, correndo, machucado e sangrando. Mero engano achar que a gente sempre está preparado pra uma nova fuga, um novo combate. Não dá pra anular esperanças quando se ama, não dá pra esconder afetividades quando se existe um amontoado delas. E foi só Adele tocar no som do carro pra eu perceber que talvez não exista mais um "nós" tão forte como antes, talvez o tempo nos fez perder o vulcão de similaridades que um dia nos tornou só amores. Amores e uma dose asustadora de inseguranças.

E hoje eu resolvi não me entender mais, não me punir mais, não me torturar com tantas dúvidas que insisto na razão de ser mais fácil. Fácil mesmo é viver, sem pensar, apenas desejando, sentindo e fazendo. Não estou tão pronto pra te encarar em uma situação avessa a que vivemos algum tempo atrás, mas estou disposto a me encontrar na solidão de dois, na tentativa furada de construir um castelo de areia sem baldes ou se quer uma pázinha de plástico. No máximo ganho uma onda pra destruí-lo em segundos e decido recomeçá-lo em outro lugar na praia, mas perto do mar!

Texto de Patrick Moraes

terça-feira, 26 de abril de 2011

Zona de conforto


Like I'm the only one that's in command
Rihanna

Não compreendi muito bem as últimas palavras que você me disse assim que saiu da porta de minha casa. Pra falar a verdade, prestei tanta atenção em teus olhos marejados de um sentimento confuso pra mim, que se quer decifraria meia dúzia de palavras saindo da sua boca. Só sei que ainda te guardo em cada simples detalhe e, insuportavelmente, te menciono nas conversas de bar que tenho com cada nova oportunidade de um novo amor. Meu problema é justamente esse, tentar te achar em cada novo encontro, em cada descoberta. Não existe redescoberta de você, a não ser que seja contigo e isso é barco furado com destino certo: o naufrágio.

E me pego pensando o quanto Murphy insiste em roubar a reciprocidade da minha vida. O quanto meu olhar detalhado desnuda cada pessoa em busca de uma perfeição, onde até mesmo os defeitos devem ser perfeitos pra mim. Não acho que esteja errado em querer pular fora na primeira tentativa de suicídio que me provocarem, na primeira repulsa por uma atitude que simplesmente não se encaixe. Mas acho bem triste não conseguir me livrar da espera pelo cavalo branco. Não existe contos de fadas em histórias onde o mocinho também encarna o vilão. Definitivamente, papéis bem definidos não entram em meu roteiro e isso acaba apontando direções que me perco antes mesmo de chegar. O pote de ouro, é isso! Talvez esteja atrás dele, escondido entre um galho seco e uma folha recém caída do pé. O problema é a rota, a infinidade de tropeços e a minha incansável necessidade de virar a direita quando todos mandam seguir em frente.

E nesses atalhos, ou caminhos alternativos, ou buscas desesperadas por uma esconderijo secreto, que eu encontro divertidas razões para sorrir. Mesmo que temporárias, mesmo que doídas, mesmo que ordinariamente efêmeras. São nelas que consigo descobrir pedacinhos invisíveis de mim, de mudanças contínuas, de curiosidade por outros espaços preenchidos aqui dentro. É um você que reflete os pequenos deslizes e as grandes bagunças, um você que tem tanto de mim, mas com marcas que um dia eu tive e cansei de expô-las. O pior é pensar que consegui abandonar a minha essência e perceber que isso é querer negar uma verdade através de um argumento fundando em mudança. Mudar é adequação. Mais cedo ou mais tarde, você se dá conta que adequou o que tinha aos espaços que te deram agora de uma forma diferente.

E com tantos caminhos trocados, papéis invertidos, mudanças que acontecem sutilmente e um incômodo bobo que marcou o passado, é hora de entender o quanto a zona de conforto te cabe. Sem aperto, sem estar excessivamente folgada, mas na medida certa para entender que as dimensões da sua vida podem ser ocupadas sem se preocupar com os objetos que você carrega do lado.

Texto de Patrick Moraes

domingo, 3 de abril de 2011

Despedaço


Já pensou que quando o trem sai da estação e você simplesmente desistiu de partir, mesmo com as malas prontas, você já não poderá mais entrar nele? Aquela oportunidade de emprego que você resolveu não aceitar, aquele convite para um simples sorvete em uma tarde de domingo que você recusou, tudo que um dia construiu sentado na areia da praia e resolveu entregar às ondas do mar?

Depois de dizer "não" é sempre complicado voltar atrás, depois de virar o rosto é sempre difícil encarar diretamente nos olhos, depois de esquecer é trabalhoso se fazer lembrança. Quantas vezes a gente abre mão sem perceber, dá um passo pra esquerda e não entende que logo em frente existe o verdadeiro tesouro. Às vezes retornar a estrada não é simplesmente engatar a marcha ré de um carro e acelerar. É preciso compreender que determinadas trilhas vão se despedaçando a cada nova curva, que a paisagem lateral se faz de galhos, folhas e, por que não, de horizontes vazios.

Perder a oportunidade de viver outros sorrisos com alguém pelo simples medo de tentar é covardia. Mas perder alguém pela simples covardia de não saber dar valor é incompreensível. Aquela história de a gente só dá valor depois que perde é a pior forma de encarar uma relação que foi pro espaço. Mas antes de ela pegar a nave, a gente se permite cultivar todas as ferramentos de um vôo sem destino de volta. Depois que o pote de jujubas cai no chão, difícil não é conseguir catar as verdinhas preferidas, mas sim colar os pedaços de vidro e se livrar daqueles que se perderam no áçucar sem gosto.

Deixar vazios é charmoso, cativa e cultiva o desejo. Mas toda dose errada é capaz de estragar as melhores intenções. E quando você pensar em viajar de novo, aquele trem já partiu, dança em outros trilhos e a cadeira que seria sua, talvez se encontre ocupada com outra mala, menos sedutora, mas bem mais aconchegante.

Texto de Patrick Moraes